quinta-feira, 18 de setembro de 2008

No exterior, o socorro é visto como um desvio do capitalismo

18/09/2008

Nelson D. Schwartz
Em Paris

Os Estados Unidos deixaram de ser o farol mundial do capitalismo de livre mercado, irrestrito?Ao oferecer um empréstimo de último minuto de US$ 85 bilhões ao American International Group (AIG), a seguradora em dificuldades, Washington não apenas deu as costas a décadas de retórica sobre as virtudes do livre mercado e os riscos de intervenção do governo, mas também provavelmente minou futuros esforços americanos para promover essas políticas no exterior."Eu temo que o governo tenha passado ao ponto sem retorno", disse Ron Chernow, um importante historiador financeiro americano. "Nós temos a ironia de um governo de livre mercado fazendo coisas que o governo democrata mais liberal nunca faria nem mesmo nos seus sonhos mais insanos."O pacote de socorro ao AIG, além do apoio anterior do governo ao Bear Stearns, Fannie Mae e Freddie Mac, espantou até mesmo os autores de políticas europeus, acostumados a intervenções do governo - apesar de reconhecerem o choque do colapso do Lehman Brothers, onde Washington optou por não intervir."Para os oponentes do livre mercado na Europa e em outros lugares, esta é uma oportunidade maravilhosa de citar um exemplo americano", disse Mario Monti, o ex-chefe antitruste da Comissão Européia. "Eles dirão que até mesmo o porta-estandarte da economia de mercado, os Estados Unidos, nega seus princípios fundamentais em seu comportamento."Monti disse que crises financeiras anteriores na Ásia, Rússia e México obrigaram governos a intervir, "mas esta é a primeira vez no coração do capitalismo, o que é enormemente mais prejudicial em termos de credibilidade da economia de mercado".Na França, onde o governo há muito apóia a criação de "campeões nacionais" e trabalha ativamente para proteger empresas seletas da ameaça de tomada estrangeira, os políticos foram rápidos em apontar o paradoxo daquela que é basicamente a nacionalização da maior seguradora americana."Hoje, as ações dos autores de políticas americanos ilustram a necessidade de patriotismo econômico", disse Bernard Carayon, um legislador do partido de centro-direita UMP, do presidente Nicolas Sarkozy. "Eu os parabenizo."Para os "pregadores do mercado esta é uma lição dolorosa", ele acrescentou.As economias nacionais estão entrando em "uma era de maior regulação e de maior mistura entre o setor público e privado".Em partes da Ásia, os socorros trouxeram lembranças amargas da abordagem diferente adotada pelos Estados Unidos e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) durante a crise econômica ocorrida lá, há uma década.Quando o FMI ofereceu US$ 20 bilhões para ajudar a Coréia do Sul a sobreviver à crise financeira asiática no final dos anos 90, uma das condições impostas foi a de que o governo sul-coreano deixasse os bancos e empresas em dificuldades falirem em vez de socorrê-los, lembrou Yung-chul Park, professor de economia da Universidade da Coréia, em Seul, que esteve profundamente envolvido nas negociações com o FMI.Apesar de Park dizer que a atual crise é diferente - é global em vez de restrita a uma região como a Ásia - "Washington está seguindo um roteiro diferente desta vez"."Eu entendo por que o fizeram", ele acrescentou. "Mas eles perderam uma certa credibilidade para pressionar pela abertura de mercados no exterior para a concorrência estrangeira e pela liberalização das economias."As ramificações do socorro ao AIG também serão sentidas por anos dentro dos Estados Unidos.O AIG era um tipo diferente de empresa que a Fannie Mae ou Freddie Mac, que contavam com uma linha de crédito garantida pelo governo, na condição de fornecedores de financiamento hipotecário, ou o Bear Stearns, que era regulado pelo governo federal."Esta era uma seguradora que não contava com regulação federal", disse Gary Gensler, que serviu como alto funcionário do Departamento do Tesouro durante o governo Clinton. Nem o AIG contava com acesso aos fundos do Federal Reserve (o banco central americano) ou ao seguro de depósitos, como um banco comercial."Nós estamos em um novo território", acrescentou Gensler. "Esta é uma mudança de paradigma."O AIG também está em uma liga diferente por causa da amplitude de seus negócios e suas extensas operações no exterior, especialmente na Ásia.Além disso, ele caiu em uma espécie de lacuna regulatória sob as regras atuais.Apesar da empresa, com sede em Nova York, ser mais conhecida pela venda de produtos convencionais como apólices de seguro e planos de previdência privada supervisionados pelos reguladores nos Estados Unidos, ela também está profundamente envolvida no mercado opaco e de risco de derivativos e outros instrumentos financeiros complicados, que operam em grande parte fora da regulação.Além da ameaça às apólices de milhões de consumidores comuns, foi a ameaça representada por estes instrumentos financeiros arcanos que levou Washington a socorrer o AIG.Até agora, o resgate não fortaleceu os mercados. "É pura gestão de crise", disse Chernow. "São o Tesouro e o Federal Reserve avançando de uma crise a outra sem uma declaração clara sobre como os fracassos financeiros serão tratados no futuro. Eles têm medo de articular uma política dessas. A rede de segurança que estão abrindo parece crescer a cada dia, sem um fim à vista."

Tradução: George El Khouri Andolfato
Visite o site do The New York Times

6 comentários:

  1. Estou decepcionado com o FED e o governo americano!

    Assumir o controle da AIG não faz nenhum sentido, o neoliberalismo não acabou, mas está sofrendo um forte baque nesta crise.

    Contudo como na crise de 29 com o New Deal, o liberalismo foi sepultado pela política keynesiana até o surgimento da escola de Chicago.

    Espero que seja apenas um New "New Deal" e não uma tendência mais duradoura.

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  2. Se o intuito é esclarecer sobre a crise não há nada mais clara que a explicação dada pela escola austriaca.
    Sorte a nossa que já temos acesso a material traduzido.
    Confiram antes de emitirem as opinioes:
    www.mises.org.br

    Um abraço
    Roberto Chiocca

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  3. E então... quando falamos que o neoliberalismo morreu é a isso que referimos.

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  4. Segundo Friedman, a grande depressão foi causada por um erro de Politica monetária. O FED diminuiu a oferta monetária por causa das falências bancárias, quando deveria ter aumentado a base monetária, e evitado a depressão...

    Creio que o que acontece hj nos EUA é só uma consequencia do raciocineo de Friedman, e não o fim do liberalismo (se é que isso algum dia existiu).

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  5. Formata esse texto!
    Sem parágrafo fica ruim de ler!

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  6. O Estado americano possui uma lei que obriga os credores financeiros a emprestarem dinheiro a pessoas de créditos duvidosos ( http://en.wikipedia.org/wiki/Community_Reinvestment_Act ); a política beligerante besta do Bush gera altos déficits para o Governo, sendo financiado via emissão de moeda. Esse aumento da oferta de dólar no mercado deprecia a moeda, além de manter artificialmente a taxa de juros baixa, que, junto à lei imbecil, realimenta uma bolha no mercado imobiliário, e por aí vai...

    Duro ouvir que a culpa da crise é do livre mercado, mais duro ainda e ver o Estado querendo dar uma de super-herói para salvar uma coisa que ele é grande culpado de acontecer.

    Só para constar, palavras do Bernanke, presidente do FED, em março de 2007:

    "Securitization of affordable housing loans expanded, as did the secondary market for those loans, in part reflecting a 1992 law that required the government-sponsored enterprises, Fannie Mae and Freddie Mac, to devote a percentage of their activities to meeting affordable housing goals (HUD, 2006). A generally strong economy and lower interest rates also helped improved access to credit by lower-income households".

    Fannie Mae e Freddie Mac, logo as duas empresas que mais se f... com a crise.

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