Criar caricaturas de seu adversário é algo comum em debates. Que Marxista, Neoclássico ou Keynesiano nunca ficou puto por ver o outro combater uma teoria que realmente não existe, que foi primeiro caricaturada para depois ser criticada?
Contudo, apesar de ocorrer com todas as teorias, a "neoclássica", por ser a que quase todos querem superar e derrubar é o maior alvo de revolucionários.
Por exemplo, alguém saberia me informar algum autor contemporâneo da "teoria neoclássica" conforme esse folder da NEF a representa?
(Fora Lucas, Sargent e Barro hehehe)
Alguns grupos que derivam do mainstream e querem se afirmar como uma escola diferente, que foge ao padrão, associam o modelo de concorrência perfeita, com racionalidade ilimitada e plena informação, a uma teoria neoclássica. Desse modo fica fácil mostrar-se como diferente; como uma nova teoria que suplanta a velha e irreal predecessora.
Só que, às vezes, parece que nem estudar o básico da microeconomia eles o fazem. Assim, saem alguns absurdos do tipo:
"Box 6b: What would you expect as financial compensation for lending $15 for periods of one month, one year or ten years?
The median answers are $20 in one month (i.e. $5 interest), $50 in one year, or $100 in ten years.46 The standard economic theory would predict that if you are happy with $100 after ten years, then you should be happy with $18 after one year or $15.24 after one month."
Segundo o folder, se você aceita emprestar dinheiro a uma taxa de juros de aproximadamente 1,6%a.m por um período de 10 anos, de acordo com a teoria econômica padrão, você também teria que aceitar essa taxa num empréstimo de 1 mês.
Ou, mostrando uma evidência contra a racionalidade neoclássica, afirmam:
"Price can signal value: When offered ‘something for nothing’ we tend to undervalue what we are offered. For example, in Australia, when a course on social entrepreneurship was offered free to a number of government people, no one signed up. When it was re-advertised three months later for AUD$2,500, however, more than 20 people enrolled."
O que o folder apresenta é na verdade uma evidência a favor. Se preços sinalizam o valor marginal de algo em termo de outro e se esse algo é gratis, um indivíduo racional faria alguma dessas hipóteses:
- ou esse algo é tão abundante que na margem não vale nada (como o ar);
- ou o governo subsidia esse algo para poder ser gratuito;
- ou a pessoa que oferece é tão caridosa que não cobra nada;
- ou esse algo é tão ruim que na margem ninguém está disposto a oferecer nada em troca
Assim, é mais do que natural supor que o preço de algo sinalize seu valor, e se alguém te oferecer um curso gratuito sem explicitar o porquê de ser gratuito, você ficará desconfiado - a microeconomia inteira realiza malabarismos de abstração para justamente tentar demonstrar isso.
A conclusão não poderia ser outra senão:
"In standard neoclassical theory the assumption is made that people act rationally and logically. As well as having all the necessary information at their fingertips, they are fully capable of making the complex calculations to compute their optimum best choice from the many possible choices available to them. In other words, the biases above are not expected to be significant."
Com certeza, como existe gente não-tão-brilhante no mundo e ensina-se o modelo de concorrência perfeita para muita gente, deve haver alguns indivíduos pérolas que acham que o homem é, de fato, uma calculadora ambulante hedonista.
Agora, sustentar uma suposta heterodoxia com base em suas diferenças com o modelo de concorrência perfeita é algo tão trivial que não sei como alguém, ou algum grupo, ainda tenta fazer isso. Desse jeito (quase) todo mundo seria heterodoxo. Ainda mais em tempos de crise, todo mundo quer ser!
E é por essas e outras que, como disse nosso amigo André (mas com uma abordagem diferente desse post) que muitas críticas não são levadas a sério. Nesse caso específico da NEF, quem, além de um conceito vago como economia padrão, está se criticando?
Mas, por falar em crítica, não estou criticando essa linha de estudo. A bem da verdade, acho a maioria dos seus temas interessantes e gostei da maior parte do que li. No entanto, encontram-se caricaturas desse tipo. E, a despeito da vontade de alguns de seus membros, do mesmo modo que o Keynesiansimo e a Economia Institucional, a Economia Comportamental, antes de ser uma opção ao que se chama de teoria neoclássica, parece estar fadada a ser colonizada por ela.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Varian e o tchan do economista
Parece que, atualmente, o "fio condutor" do que se produz em economia - o "tchan" - é desafiar o senso comum. O maior prazer do economista é fazer uma pergunta do tipo:
- Sr. Leigo, dado que você comprou uma casa, se o preço dos imóveis baixarem no dia seguinte, você estará em melhor ou pior situação?
O leigo, intrigado com aquela pergunta aparentemente óbvia, responde por educação:
- Ué. Pior!
Nesse momento o economista entra em êxtase e brada:
- Ahá!!! Não, Sr. Leigo, você estará melhor!
E aí o economista se explica:
- Quando o Sr. escolheu sua casa, escolheu uma cesta de bens ótima. Agora que o preço dos imóveis baixou, o Sr. pode escolher entre manter sua cesta atual ou alterá-la. Então, se o Sr. não for irracional e não mudar de preferências, não pode ficar pior, mas apenas melhorar de situação.
E assim o Sr. Leigo vai embora pensando que o economista é prepotente e burro por achar que sabe quando ele fica melhor ou não.
Só que ele não percebeu que o tchan da questão só aconteceu por causa da palavra "dado". O economista não perguntou se a decisão de comprar a casa foi boa ou ruim - pois se tivesse adiado a decisão de consumo para o dia posterior, compraria a casa por menos - Mas, perguntou se, "dado" que a merda já tinha sido feita, ele ficaria em pior ou melhor situação.
Seguindo essa linha, Varian, no apêndice do capítulo sobre Incerteza, afirma que ao se tributar um ativo de risco, ao invés de se desincentivar, incentiva-se o investimento no referido ativo.
Seu raciocínio é o seguinte:
Sejam p a probabilidade de ocorrer o cenário "bom" da economia e (1-p) a probabilidade de ocorrer o cenário "ruim".
Sejam $ a riqueza do indivíduo, x a parcela da riqueza gasta no ativo de risco e Rb e Rr as taxas de retorno do ativo de risco nos cenários "bom" e "ruim" respectivamente.
A utilidade esperada da riqueza do indivíduo seria:
(1)UE = p*u($+xRb) + (1-p)*u($+xRr)
A derivada da função seria:
(2) UE' = p*u'($+xRb)Rb + (1-p)*u'($+xRr)Rr
E o montante x maximizaria UE quando UE'=0.
Caso se tributasse o retorno do ativo, a função UE' passaria a ser:
(3) UE' = p*u'($+x(1-t)Rb)Rb + (1-p)*u'($+x(1-t)Rr)Rr
E aí vem o pulo do gato. A solução da equação 3 (que vou chamar de x3) seria uma proporção da solução da equação 2 (x2). Mais especificamente,
x3 = x2/(1-t)
É só substituir x3 por x na equação 3, "cortar" os (1-t), e perceber que ela se tornará exatamente igual à 2.
Assim, como (1-t) < 0, x3 > x2.
E o Varian brada:
"Sua primeira reação talvez seja a de pensar que x2>x3 - que a taxação de um ativo de risco tenderá a desincentivar o investimento nele. Mas esse raciocínio está errado! Na verdade, a tributação de um ativo de risco, conforme descrevemos, incentivará o investimento nele!"
Só que o tchan do Varian está na segunda parte da equação:
(1-p)*u'($+x(1-t)Rr)Rr
Ora, como o próprio Varian expõe depois, essa segunda parte da equação explicita que o governo tributará negativamente" (subsídio) um rendimento negativo (prejuízo) do ativo de risco - o que é absurdo, dada a pergunta (Não que eu duvide que isso aconteça na vida real - vide EUA)
Em números, se o imposto for de 25% e o prejuízo de 15%, o prejuízo após imposto seria de 0,75*0,15 = 11,25%.
Assim é fácil falar que a "tributação de um ativo de risco incentivará o investimento nele", pois se está pressupondo que, em caso de rendimento negativo, o governo subsidiará os investidores.
Agora, se a equação for essa,
UE' = p*u'($+x(1-t)Rb)(1-t)Rb + (1-p)*u'($+xRr)Rr
o que é a tributação mais comum para ativos de risco, a coisa muda de figura. Duvido que Varian aumentaria seus investimentos nesse ativo.
Nesse caso, o senso comum volta à tona e o Sr. Leigo acerta a resposta. O que, provavelmente, também teria acontecido se a pergunta anterior tivesse sido feita corretamente: "Como o nível de investimento num ativo de risco se comporta quando seu rendimento positivo é taxado mas seu rendimento negativo é amenizado com subsídio?" Afinal, se o economista está tentando prever o que o indivíduo irá fazer (aumento do investimento) dado certo incentivo (aumento de tributação), não é uma ironia ele predizer o comportamento contrário do que o próprio indivíduo se propõe a fazer?
Só que, desse jeito, a pergunta perde o tchan do economista.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
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