quinta-feira, 28 de abril de 2011

Por que as expectativas importam?

Alguns questionam se a melhor forma de reduzir o desemprego é através do regime de metas de inflação.

Com a crise, muitos dizem que a macroeconomia mudou. Mas estes mesmos esquecem de contextualizar cada cenário. Não há uma política macroeconômica geral, mas cada cenário exige uma política econômica diferente. Tentar repetir no Brasil políticas utilizadas em países que estão com elevado desemprego não trará outra coisa que mais inflação e desemprego no futuro.

A economia brasileira hoje está crescendo e não se prepara para um cenário de reversão, onde o hoje favorável fluxo de capitais pode deixar de existir e sermos pegos numa situação muito frágil.

Mas pensemos porque é mais eficiente para reduzir o desemprego termos uma meta de redução de inflação e não de redução do desemprego.

Consideremos uma curva de Phillips na seguinte forma:



onde  é a inflação,  a inflação esperada,  a taxa de desemprego e  a taxa de desemprego natural.


Se em cada momento o Banco Central consegue fazer com que a inflação  seja igual à inflação esperada, ou seja, que a meta de inflação  seja alcançada sempre, teremos que:



Então a curva de Phillips pode ser reescrita como:



Resolvendo, temos que






O resultado é que teremos a taxa de desemprego igual à taxa de desemprego natural. Ou seja, quanto mais eficiente o regime de metas de inflação, menor o nível de desemprego.

Mas o que acontece quando o Banco Central não prioriza alinhar as expectativas de inflação do agentes econômicos no mercado? Se o Banco Central não tenta alinhar as expectativas, o mercado acaba definindo e o Banco Central perde o controle sobre elas.


E podemos pensar um pouco sobre isto utilizando o modelo abaixo:

Seja   a taxa de desemprego,  a taxa de desemprego natural,  a inflação atual,  a inflação esperada e  a meta de inflação.

Utilizando uma curva de Phillips como esta abaixo:



E considerando a seguinte função de perda social:



Observem que neste modelo, o objetivo é ter uma taxa de desemprego menor que a taxa natural, ou seja, a prioridade é o combate ao desemprego e não o controle da inflação.

Considerando que o Banco Central toma a inflação depois que o mercado define suas expectativas (), o problema consiste em:

Minimizar



sujeito a


Substituindo a restrição, temos que minimizar:




O que resulta na condição de primeira ordem:




Se no ótimo, o governo trabalha com a inflação esperada dada pelas expectativas já formadas pelos agentes, podemos fazer  . Então temos que:



Mas aplicando o valor esperado, encontramos que:






E substituindo na curva de Philips, temos que



Ou seja, a economia está com o nível de desemprego igual à taxa natural, mas a inflação esperada será superior à meta de inflação.

Não teremos ganho na redução do desemprego, mas terminaremos com um nível mais elevado de inflação.



¨

Agora o tatame vai tremer! O "figth" continua...

Saiu a nova sequência do debate entre Keynes e Hayek. É bem interessante para entender as diferentes visões e como se dão os ciclos econômicos.

E quem quiser entender um pouco da visão austríaca da macroeconomia, vejam esta apresentação aqui do Roger Garinson.



Inovação "bolivariana"

Enquanto o Brasil discute sobre o inviável Trem Bala, o Bolívia mostra como o "bolivarianismo chavista" pode ser inovador e criativo.

Conheçam o "trem ônibus" (via Leonardo Monastério)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Estes economistas e suas incríveis máquinas de calcular...

Já que o Igor postou sobre o Moniac, vejam este artigo sobre  Modelos mecânicos em economia de 1950.

E vejam também o modelo de uma superfície de consumo, utilizada pelo Irving Fisher usava nas suas aulas, e ele também desenvolveu um modelo de computador hidráulico. Via Blog do Leonardo Monasterio

A economia do Spam


Alguns acham que a solução para o problema do Spam seria a proibição. Mas seria a melhor maneira ou a mais eficiente? E não abriria a porta para um controle maior do Estado sobre a internet?
O Spam tem um custo muito baixo, e por isto é enviado em grandes quantidades. Basta você ter um computador, um software próprio e um bom provedor, uma lista de emails e pronto! Você pode enviar milhões de email’s. E assim, o envio de um email a mais é feito a custo quase zero.
Como estamos no mercado, isto gera receita para quem envia o spam, mas cria oportunidades para quem tenta evitar. Surgem empresas e software para tratar o problema. Isto é o mercado atuando.
Proibir não é a melhor solução. Seria importante atuar sobre os custos, o que reduziria o incentivo ao envio do Spam.
Para ver melhor sobre isto, e de como soluções via mercado seriam mais interessantes, leia o artigo “A economia do Spam” no site Ordem Livre.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um rosto na multidão

Achei a foto abaixo bem marcante e emblemática.

Mulheres indo às ruas, com seus filhos, e enfrentando franco atiradores do Governo iemenita. Mas e a burca? Uma coisa de cada vez?

Menina reza junto a manifestantes anti-governo durante protesto exigindo a renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh, em Sanaa (Iêmen)

 Muhammed Muheisen/AP
http://noticias.uol.com.br/album/110425olho_album.jhtm?abrefoto=13#fotoNav=1

A política fiscal nos EUA fracassou ou não foi usada?

O Paul Krugman sempre faz algumas observações interessantes, mesmo que ás vezes polêmicas ou equivocadas, e recentemente ele usou um gráfico para sustentar o seguinte:
apesar da elevação dos gastos do governo federal nos EUA, os governos estaduais e municipais cortaram gastos, e isto implicou em anulação dos efeitos dos gastos federais. Pois enquanto um elevou os seus gastos, o outro reduziu.
E aí ele posta o gráfico abaixo e pergunta se é possível dizer que houve um maciço estímulo fiscal. O artigo pode ser lido aqui. A questão dele é que a política fiscal não fracassou, ele não foi nem usada.






Cantando com o Google


Sabem aquela moça do tradutor do Google?
Ela também canta…

domingo, 24 de abril de 2011

Você tem habilidade com alguma coisa?

Paco de Lucia ("Entre dos Aguas" - 1976)





Antes que você diga que ele nasceu com "dom" para isto, tente saber quantas horas por dia ele treinava. E tente passar pelo menos a metade deste tempo estudando ou treinando alguma coisa que goste. Aí você descobrirá que tem um "dom" também.

Não basta achar que sabe, tem que mostrar que sabe. Não basta querer fazer, tem que fazer. Para tristeza ou alegria, não sei, somos avaliados por resultados e não por nossas intenções ou opiniões sobre nós mesmos.

"Somos o que fazemos repetidamente. Por isso o mérito não está na ação e sim no hábito. " ( Aristóteles )


[Sim! Eu sei que ficou com cara de livro de auto ajuda]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O que sobrou das boas intenções?


Às vezes lemos algumas coisas que nos levam a conclusões que quando são confrontadas com a realidade são absurdas.

E talvez por isto a heterodoxia tenha tanta restrição à matemática, pois a matemática exige lógica, e quando tentamos escrever matemáticamente certas idéias, veremos que há uma enorme contradição entre o discurso e as conclusões práticas das idéias.

Alguns economistas heterodoxos, que se dizem progressistas e defensores da redução da desigualdade social, e que querem dar uma formação "crítica" aos seus alunos, costumam defender algumas idéias como estas aqui: reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público. Estas medidas permitiriam à economia crescer mais e amenizar questões sociais.

Vamos ver o que acontece quando tentamos pensar logicamente nestas questões?

Vemos que muitos defendem uma maior participação do Estado na economia. Mas pensemos numa coisa simples. Quem gasta melhor o seu dinheiro: você ou o Estado? É você mesmo. Então toda a vez que o Estado cresce seu tamanho na economia, cresce junto a ineficiência na economia.

E basta pensar que deve ter uma pessoa para planejar como arrecadar (Receita Federal), alguém para pensar como gastar (ministérios, deputados e senadores), alguém para fiscalizar os gastos (Tribunal de Contas, Polícia Federal, etc). Ou seja, a decisão de uma pessoas comprar feijão preto ou vermelho quando é feita pelo pelo Estado envolve um custo enorme (isto é sem considerar a corrupção).

Por isto o Estado não deve ser grande demais e nem crescer em qualquer direção, apenas naquilo que é essencial. Quando o Estado tributa você, ele diminui a sua renda e reduz sua capacidade de escolha. Isto não é democrático.

Mas podemos ver uma outra questão simples, que é sobre quem se beneficia com o crescimento dos gastos do Estado. Pois muita gente por aí diz que isto é feito para beneficiar os mais pobres.

Considerando um modelo como aquele dos esquemas de reprodução do Marx ou do Kalecki, que divide a economia em bens de consumo dos capitalistas e dos trabalhadores, podemos pensar no seguinte:

em equilíbrio, a oferta (O) é igual à demanda (D)

O = D

e a demanda na economia é formada pelos bens demandados pelos trabalhadores (Cw), pelos bens demandados pelos capitalistas (Ck), pelos bens demandados para investimento (I) e pelos bens demandados pelo governo (G):

D= Cw + Ck + I + G

e a oferta é dada pelos salários (W), lucros dos capitalistas (L) e pelos impostos (T)

O = W + L + T

Se, no equilíbrio, a oferta é igual à demanda, temos que

O = D

W + L + T = Cw + Ck + I + G

Na visão heterodoxa, os trabalhadores gastam tudo o que ganham e não poupam (dado os baixos salários, tudo vai para consumo), então

W = Cw
W - Cw = 0

rearranjando os termos

L = Ck + I + (G - T)

O lucro dos capitalistas (L) é dado pelo consumo dos capitalista (Ck), investimento (I) e gastos do governo (G - T).

Olhando para esta equação, qual é a nossa conclusão? Que quanto mais o governo gastar (G-T>0), maior será o lucro dos capitalistas. Quem mais se beneficia com o aumento dos gastos do governo não são os trabalhadores ou mais pobres, e sim os capitalistas. E se olharmos para o financiamento do déficit público, fica mais interessante.

A poupança nesta economia, que é igual à poupança dos capitalistas, é dada pela diferença entre os seus lucros e os seus gastos de consumo (L - Ck), então temos que:

L = Ck + I + (G - T)

L - Ck = I + (G - T)

S = I + (G - T)

O que isto quer dizer? Que a poupança dos capitalistas pode ir para bens de investimento ou para títulos públicos que financiam o déficit público. Outra forma de você aumentar o lucro dos capitalistas, sem que eles tenham que investir, é elevar o déficit público. Ou seja, um maior gasto público facilita a vida dos capitalistas.

Outra questão é o controle da inflação, que alguns acham exagerada a preocupação de colocar a inflação sob controle e que um pouco de inflação ajuda no crescimento. Vamos olhar melhor a questão e ver quem ganha e quem perde com a inflação (e como é frágil e injusto crescer com base na inflação)

Vamos usar um modelo simples em que os preços na economia são formados colocando uma margem de lucro (mark up) sobre os custos diretos, e vamos supor que o principal custo é o salários e que as empresas tem poder de mercado (mark up), então dentro do "mark up" estão os valores para cobrir outros custos, então será assim:

W = salários
P = preço
(1 + k) = mark up

então temos que:

P=(1 + k).W

Mas o que importa na economia são os valores reais, que são aqueles quando descontamos a inflação, e no caso dos salários, o que importa é o salário real. Dividindo a equação anterior pelos preços, temos que:

P/P = (1 + k).W/P
1 = (1+ k).W/P
1/(1 + k) = W/P

W/P = 1/(1 + k)

Quando temos inflação, quer dizer que os preços estão crescendo (P), e dada a equação acima, significa que os salários reais estão caindo e os trabalhadores perdem renda. Mas para manter a igualdade, temos que o mak up (1 + k) terá de se elevar, ou seja, o lucro dos capitalistas se eleva. É por isto que a economia cresce um tempo, pois parte da renda dos trabalhadores está indo financiar o investimento.

Assim fica fácil crescer por um tempo. Mas acontece que os trabalhadores aprendem que a inflação está fora de controle, e começam a exigir que os salários sejam reajustados com base na inflação esperada (Pe) e não na inflação passada ou atual (P), quando isto acontece, o milagre de crescer com inflação desaparece. Aliás, o crescimento vai embora e fica apenas a inflação. Isto ficou conhecido como estagflação (comum nos anos 70).

Fazer a economia crescer com inflação gera apenas concentração de renda. Não é o crescimento que cria desigualdade, mas a forma como ele é feito, principalmente quando se dá apenas via acumulação de capital (grandes indústrias) e não se prioriza os ganhos de produtividade (educação, infraestrutura, etc).

Deve ficar claro para todos que a inflação é um tipo de imposto que extrai renda dos mais pobres em favor do Governo e dos mais ricos. E por isto a renda é concentrada no Brasil, pois desde os anos 30 crescemos via ondas inflacionárias e crises. 

E uma tentativa de desvalorizar o câmbio artificialmente, como alguns querem, tem apenas o efeito de criar inflação (o que reduz a renda real dos trabalhadores) e aumentar o lucro dos capitalistas.

Mas é curioso que vemos estas medidas (reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público) sendo propostas por pessoas que dizem possuir o tal "pensamento crítico" e que se preocupam apenas com os mais pobres.

Vimos aqui que quem se beneficia são apenas os mais ricos. Este é o tal "pensamento crítico"?

Sempre deve ficar claro que o que importa não são as motivações ou intenções e sim os resultados. E vemos que, apesar das boas intenções, acabamos tendo resultados opostos àqueles previstos inicialmente.

Desfazendo a visão mercantilista

O que é  melhor: ter um saldo comercial maior e acumular reservas ou ter um saldo igual a zero?

Bem, se você acredita na visão mercantilista, quanto maior o saldo na Balança comercial, melhor será para o país. Mas será que está é a melhor política a seguir ao longo do tempo?

Vejam os gráficos abaixo e vejam como a Coreia do Sul se aproveitou melhor das vantagens do comércio internacional do que o Brasil.

E ainda hoje vemos muita gente tentando barrar importações.

A referência muito boa é blog http://thefaintofheart.wordpress.com/2011/01/30/desejos-mercantilistas-do-ministro/







Via Leonardo Monastério

terça-feira, 19 de abril de 2011

A mania de grandeza tem seus custos...

O Brasil, que adora ter mania de grandeza, corre o risco de perder os privilégios de país subdesenvolvido no comércio mundial.


Brasil perde privilégios de país emergente


UE deve pôr fim a benefícios às exportações do Brasil em maio; EUA e Japão, em seguida


19 de abril de 2011 | 0h 00



Jamil Chade - O Estado de S.Paulo
CORRESPONDENTE / GENEBRA
Ed Viggiani/AE-25/4/2007
Ed Viggiani/AE-25/4/2007
Apoio. Em 2010, exportações tiveram redução tarifária, beneficiando setores como o de autopeças
De tanto declarar que será a quinta maior economia do mundo, o Brasil agora começa a deixar de ser tratado como um país pobre e terá as preferências comerciais às suas exportações retiradas.
Europeus, japoneses e americanos estão usando o crescimento da economia brasileira como argumento para acabar com preferências dadas ao País por décadas. O primeiro a suprimir benefícios será a União Europeia (UE), em maio.
Bruxelas vai suspender as preferências tarifárias que dá para mais de 12% das exportações brasileiras, argumentando que o País não precisa mais de ajuda. Tóquio e Washington também já indicaram que farão o mesmo.
Diante da nova realidade, a diplomacia brasileira agora é obrigada a reverter o discurso e alertar que, na realidade, ainda enfrenta desafios sociais e econômicos importantes.
Na prática, a UE promove o Brasil a uma nova condição e cria uma diferenciação entre a economia nacional e a dos demais países em desenvolvimento. Estabelecido há décadas, o Sistema Geral de Preferências da UE foi criado justamente como forma de incentivar as exportações de países em desenvolvimento.
Em 2010, 3,1 bilhões das exportações nacionais contaram com a ajuda da redução tarifária, permitindo que alguns produtos manufaturados ainda tivessem certa competitividade no mercado europeu, entre eles, têxteis, químicos, máquinas, autopeças e mesmo alguns agrícolas.
"Estimamos que o sistema precisa funcionar prioritariamente para aqueles países que mais precisam de ajuda", apontou uma fonte da Comissão Europeia. "Há países que, há uma década, estavam em um nível e, hoje, já estão em outro."
Para Bruxelas, há uma nova realidade internacional. "Todos temos de nos acomodar a essa nova situação", indicou o negociador europeu. "O Brasil e outros países precisam entender que não terão mais os mesmos privilégios."
No caso europeu, as medidas serão anunciadas no mês que vem, mas entrarão em vigor apenas em 2012.
Efeito dominó. O governo japonês já indicou que também suspenderá privilégios ao Brasil. Nos Estados Unidos, o Congresso já revê os benefícios que concede às exportações brasileiras e indica que não pode continuar tratando Brasil e Malawi da mesma forma.
Na Organização Mundial do Comércio (OMC), o País sofre com o mesmo problema. O governo americano insiste que o Brasil - além de China e Índia - precisa deixar de ser tratado como emergente e ter um tratamento mais parecido ao dado aos países ricos. O governo americano quer que o Brasil elimine tarifas de importação para milhares de produtos e pede "mudança de atitude" se quiser começar a fechar acordos comerciais.
Isso porque, segundo eles, o Brasil já se beneficiou do acesso aos mercados na última década, sem dar nenhum retorno. "Esperamos que o Brasil assuma sua responsabilidade no mesmo nível que tem sido beneficiado pela economia mundial. Ninguém questiona que uma parte significativa do milagre da economia brasileira seja atribuída à sua habilidade para exportar. Esse progresso é manifestação de trabalho duro, mas também de que existem mercados abertos. O Brasil tem tido benefícios por ter acesso a mercados e pelas concessões feitas pelos ricos na Rodada Uruguai há 16 anos, que criaram oportunidades para o País desenvolver indústrias de classe mundial", afirmou há poucas semanas Michael Punke, embaixador americano na OMC.
O governo brasileiro acredita que americanos, europeus e japoneses apenas estão usando a expansão da economia brasileira como desculpa para manter barreiras e frear as exportações nacionais. Mas tanto na UE, como em Washington, Tóquio e Genebra, o Brasil foi obrigado a mudar o tom ufanista e até explicitar a falta de competitividade do setor industrial nacional.
Em reuniões da OMC com americanos e europeus, o Itamaraty já começou a explorar os problemas do País para justificar a manutenção de tarifas de importação e para pedir concessões dos ricos.
Munição
Numa tentativa de manter os benefícios, o Itamaraty se municia de dados desfavoráveis ao Brasil. Com os EUA, por exemplo, as exportações industriais brasileiras caíram 40% em 2010. 

O endividamento dos países

O Wall Street Journal publicou um infográfico que permite visualizar e comparar a classificação e o endividamento dos diferentes países.

Vejam aqui.

Em tempos de guerra, nada melhor do que acender o cachimbo da paz

Já que o diálogo se encerrou, está na hora de alguém da tribo acender o cachimbo da paz...

"Ah! Eu não sou embaixador mundial da paz, mas esta paz aqui me faz viajar tanto pelo mundo..."

E para onde esta barca vai, fazendo água e sem bússola?

Pessoal,

eu já divulguei na lista de discussão e divulgo novamente o blog do Kleber S.

O mundo hoje vive um momento delicado. Além de toda a crise política e econômica, temos algo inesperado e trágico que foi o que aconteceu no Japão, que além de agravar a situação da economia mundial e do próprio país, traz um fator preocupante que é o acidente nuclear em Fukushima.

Nas palavras do Kleber S, a classificação 7 foi para Chernobyl e terão de criar a classificação 8 para Fukushima, dada a gravidade da situação e incapacidade de resolvê-la.

A TEPCO priorizou esforços para salvar a usina e não para salvar vidas, e agora estão diante de uma situação fora de controle.

A crise econômica ainda faz estragos, dada a evolução da questão fiscal nos EUA e dos países baixinhos na Europa, enquanto que as questões políticas evoluem de forma contraditória nos países islâmicos, em que há intervenção na Líbia por motivos humanitários e leniência diante das ações repressoras na Síria e Iemen, por exemplo.

Este mosaico de fatos eu só vejo ser tratado com inteligência, bom humor e acidez num único lugar ao mesmo tempo e convido vocês novamente a conhecerem, que é o Blog do Kleber S.

Vale a pena ler e acompanhar, seja para aprendizado ou para conhecer um ponto de vista diferente e original. Eu já havia divulgado antes na lista de discussão e refaço o convite.

Se você quer ter uma visão crítica do que acontece no capitalismo mundial sem ser marxita e que preserve as liberdades individuais, sigam a sequência de "updates" do Kleber S,  que neste momento já está no 105. Leiam e vejam a antecipação da evolução dos fatos.

Boa leitura a todos!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Somos do primeiro mundo agora?

Risco Brasil fica mais perto do risco EUA

Nunca a diferença de risco entre os países foi tão pequena; melhora brasileira nos últimos anos e piora da situação fiscal americana explicam fenômeno

18 de abril de 2011 | 23h 00
Leandro Modé, de O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - O risco do Brasil percebido pelos investidores globais nunca foi tão baixo se comparado ao dos Estados Unidos, considerado referência em segurança financeira. Na semana passada, a diferença entre as medidas de risco dos dois países alcançou o menor nível da história: 0,60 ponto porcentual. Segunda-feira à tarde, estava em 0,62 ponto porcentual.
Esses números foram extraídos das negociações com um derivativo financeiro amplamente negociado no mercado, chamado CDS (Credit Default Swap, em inglês). Esse papel é um tipo de seguro vendido a investidores que querem se proteger de um eventual calote.
Se alguém quer comprar títulos públicos brasileiros e, ao mesmo tempo, se proteger, utiliza o CDS. Ontem, pagava 1,1% ao ano em dólar para este fim. Para se proteger de eventual problema nos EUA, a taxa estava em 0,48% ao ano. O mercado de CDS movimenta trilhões de dólares mundo afora e o do Brasil é um dos mais negociados.
O que ocorre hoje é fruto de três movimentos. "De um lado, espelha a melhora da percepção de solvência do Brasil. De outro, é fruto da enorme liquidez global", explica o economista Dany Rappaport, sócio da InvestPort Consultoria e Gestão de Recursos. "Ou seja, em relação especificamente ao Brasil, há uma razão estrutural e outra conjuntural, que catalisa a estrutural."
Ontem, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s e o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Alan Greenspan jogaram luz sobre um terceiro fator: uma deterioração na confiança de os EUA honrarem sua dívida. Ninguém está dizendo que a maior economia do mundo vai dar um calote amanhã ou mesmo nos próximos anos. Mas o risco de isso acontecer tem crescido.
Do ponto de vista do Brasil, estruturalmente, as contas públicas apresentaram expressiva melhora nos últimos anos. A relação entre a dívida líquida do setor público e o Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 60% em dezembro de 2002 para os atuais 39,9%. Isso significa que a probabilidade de o governo brasileiro não honrar o pagamento dos títulos que emite é muito baixa.
Além disso, a dívida externa foi drasticamente reduzida nos últimos anos em decorrência, principalmente, do acúmulo de reservas internacionais. Atualmente, o País tem um colchão superior a US$ 320 bilhões. Segundo analistas, um montante desses assegura ao investidor uma porta de saída quando - e se - decidir deixar o Brasil.
A melhora da solvência interna e externa foi reconhecida mais uma vez há duas semanas, quando a agência de classificação de risco de crédito Fitch elevou o chamado rating do Brasil. O País está agora em um degrau ainda mais alto na escala que procura medir a capacidade de solvência de um emissor de dívida.
Liquidez. Do ponto de vista conjuntural, o mundo vive situação ímpar, que se caracteriza por enorme injeção de dinheiro no mercado pelos países desenvolvidos. Após o estouro da crise, os bancos centrais dos EUA e da Europa decidiram fazer o que se chama em economia de imprimir dinheiro. Com isso, inundaram o mundo com recursos.
Como o Brasil é visto como um porto seguro - pela solvência e também pelas taxas de crescimento expressivas se comparadas às do resto do planeta -, tornou-se um natural receptor de uma parte dessa liquidez. "Na realidade, a queda do risco Brasil é resultado desse fluxo de capitais para cá", afirmou o economista-chefe do Banco Santander, Maurício Molan.
Em termos práticos, esse cenário significa que governo e empresas brasileiras nunca se financiaram pagando tão pouco. Mesmo quando a farta liquidez começar a secar, a expectativa é de que o País continue bem situado.
"Ainda que as contas públicas não sejam uma maravilha e o governo venha aumentando os gastos ano após ano, nossa situação fiscal é melhor que a da maioria dos países desenvolvidos", afirma um analista que pede anonimato. "Não há hoje risco de solvência no País. A situação fiscal pobre vai ‘apenas’ atrapalhar nosso desenvolvimento."

O Brasil e os Brics

O gráfico abaixo mostra a participação do PIB de cada país, com base no PPP(1), que faz parte do grupo chamado BRIC no PIB mundial. Vejam como evolui cada país nos últimos 20 anos.

Fonte: FMI

(1) Gross domestic product based on purchasing-power-parity (PPP) share of world total

sábado, 16 de abril de 2011

Se você acha bonito ser desenvolvimentista...

Sempre tem alguém dizendo que o desenvolvimentistmo é a solução para o Brasil. Durante várias décadas o Brasil e outros países da América Latina seguiram as tais políticas desenvolvimentistas\cepalinas, e qual foi o resultado? Olhem o gráfico abaixo que eu fiz utilizando os dados da PWT e comparando a renda per capita de alguns países da América Latina com a renda per capita dos EUA.

A América Latina ficou mais rica ou mais pobre? E com certeza alguém irá dizer que com o Brasil foi diferente, olhando para a linha azul no gráfico. Bem, basta olhar que a conta foi paga nos anos 80 e lembrar que o tamanho do nosso mercado amenizou as distorções, mas não anulou, tanto que a década perdida não veio por acaso, e não adianta dizer que o sonho acabou por causa da crise do petróleo ou da dívida, pois a década perdida não foi perdida para todos.

Então, temos de tomar cuidado com o discurso que qualquer coisa pode ser feita em nome do desenvolvimento.


É importante lembrar que sempre que crescer acumulando capital é possível por um bom tempo, mas o que dá sustentabilidade ao crescimento é a maior produtividade e eficiência da economia. E isto não está sendo priorizado.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

É melhor exportar minério ou produzir aço?

O que é melhor: o país apenas explorar e exportar minério de ferro ou criar siderúrgicas e exportar aço? Se a Vale quer lucrar mais, por que ela prefere exportar o minério e não montar siderúrgicas aqui no Brasil?

O que ela quer é ter lucros maiores, e por que não ter lucros maiores produzindo aço? Bem, aí tem que ver a produtividade na produção do minério e na produção do aço e verificar qual gera maior valor. E será que quando a Vale faz uma escolha pensando no seu lucro maior, isto é bom ou ruim para o Brasil?

Pode ser que ao investir em siderúrgicas, a economia como um todo, esteja destruindo valor e não criando. Não temos que olhar o valor do produto apenas, mas olhar o custo de oportunidade da escolha entre produzir minério apenas ou aço.

O artigo abaixo, do Alexandre Schwartsman (do blog A Mão Visível), discute isto e desmistifica a "falácia do valor adicionado".




Smith, Ricardo e o lobo


Alexandre Schwartsman (Folha de São Paulo - 12/04/2011)

A “falácia do valor adicionado” é uma das manifestações mais comuns do analfabetismo econômico. Geralmente se expressa como indignação pelo país exportar alguma matéria-prima (minério, petróleo, algodão) ao invés de seu correspondente manufaturado (aço, gasolina, têxteis), clamando a seguir pela atuação do governo para: (a) desvalorizar o câmbio; ou (b) taxar as importações de manufaturas; ou (c) taxar as exportações de matérias-primas; ou (d) dar crédito subsidiado à produção local; ou (e) subsidiar diretamente a produção local; ou (f) todas as alternativas anteriores.

Embora as políticas acima tenham como efeito inequívoco o benefício de poucos em detrimento de muitos, são comumente apresentadas como de “interesse nacional”, mas não é esse o caso. Para entender isso, vamos usar um exemplo obviamente irreal, que, todavia, ajuda revelar a estrutura básica do problema.

Imagine que haja 100 trabalhadores disponíveis e cada um possa produzir 2 toneladas de minério de ferro, ou meia tonelada de aço. Por outro lado, cada tonelada de aço, produto de maior valor agregado, vale duas toneladas de minério. Como deveriam então ser distribuídos os trabalhadores entre a produção de aço e minério, considerando que o país precisa de 25 toneladas de aço?

À primeira vista bastaria empregar metade dos recursos para a produção de minério e metade para a produção de aço, obtendo assim 100 toneladas de minérios e as requeridas 25 toneladas de aço.

Há, contudo, uma alternativa melhor: todos os trabalhadores poderiam ser empregados na produção de minério, gerando 200 toneladas, das quais 50 poderiam ser trocadas por 25 toneladas de aço. Mesmo concentrando a produção no bem de menor valor adicionado, obtém-se o aço necessário, mas com um saldo maior de minério de ferro (150 toneladas contra 100) do que na primeira opção.

O exemplo é confessadamente imaginário e os números foram escolhidos para mostrar um caso em que o foco na produção do bem de menor valor adicionado gera resultados superiores. Ainda assim, ele revela verdades importantes. Vale mais produzir minério do que aço em nosso exemplo porque a produtividade relativa (2 toneladas/trabalhador no primeiro setor versus 0,5 tonelada/trabalhador no segundo) supera o preço do aço em termos de minério (2 toneladas de minério por uma de aço). Não é difícil concluir que seria mais vantajoso empregar todos os recursos na produção siderúrgica apenas se o preço do aço ultrapassar 4 toneladas de minério por uma de aço.

Como, porém, podemos saber se a produtividade relativa entre os setores supera, ou não, o preço relativo desses dois bens? Basta observar o comportamento das empresas: face à alternativa de produzir minério ou aço, qual é a atividade escolhida? Dado que empresas privadas, em geral, não estão no negócio de rasgar dinheiro, a escolha mais lucrativa revela a relação entre preços e produtividade.

No entanto, seria esse comportamento míope, dado que a empresa estaria preocupada apenas consigo mesma, e não com “os interesses do país”? Não. No primeiro caso, temos a produção de 100 toneladas de minério e 25 de aço, que, ao preço de 2:1 equivale a um PIB de 150 toneladas de minério (ou 75 de aço). No segundo caso, o PIB equivale a 200 toneladas de minério (ou 100 de aço), mostrando que a otimização individual também implica otimização para a sociedade como um todo.

Assim, a menos que se consiga mostrar que há custos (ou benefícios) envolvidos na produção dos diferentes bens não plenamente refletidos nos preços (por exemplo, se uma atividade é mais poluidora que a outra), a solução de mercado revela a forma mais eficiente de produção. Os “interesses do país” serão melhor servidos se aprendermos a respeitar os resultados da busca pelo interesse individual, coordenados pelo sistema de preços, não pelo intervencionismo governamental.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estamos repetindo o governo Geisel?

Artigo do Armínio Fraga, ex presidente do Banco Central, e do Pedro Cavalcanti, professor da FGV RIO, em que se comenta sobre os riscos de se ressuscitar o modelo nacional desenvolvimentista.


O Brasil na encruzilhada


Tentativa de ressuscitar o modelo nacional desenvolvimentista pode colocar em risco continuidade do processo de crescimento econômico do País



Pedro Cavalcanti Ferreira e Arminio Fraga Neto - O Estado de S.Paulo
O Brasil vive um bom momento de crescimento, a um ritmo de cerca de 4% ao ano nos últimos anos. Mas cabe avaliar se esse processo vai ter continuidade, nos levando a um produto per capita semelhante ao dos países mais avançados, ou se vamos repetir a experiência de 1950 a 1980, quando acabamos batendo num teto e nos espatifando na Década Perdida.
Em 1950, o produto per capita brasileiro era de cerca de 12% do produto per capita americano. Em 1980, no ápice do milagre, nossa produtividade alcança 24% da americana. Desde então, nosso produto relativo caiu continuamente, chegando a 16% na década de 90. Desse ponto em diante, o País volta a crescer de forma contínua, atingindo hoje algo em torno de 20% do produto per capita americano, sem dúvida um avanço, mas ainda modesto.
Aqueles mais nostálgicos dos tempos do milagre econômico tendem a apontar as políticas nacional desenvolvimentistas adotadas desde a década de 50 como a causa principal de nosso crescimento acelerado. Nesse modelo, o Estado ocupa papel central na economia, tanto como produtor direto quanto como indutor de investimentos privados via coordenação e incentivos fiscais e tributários. Há uma articulação entre interesses públicos e privados em setores entendidos como estratégicos e fortes gastos em infraestrutura e formação de capital por empresas estatais. Mais ainda, a produção nacional é protegida da concorrência internacional através de barreiras comerciais e outras.
Há em curso em nosso País, principalmente a partir de 2008, uma tentativa de ressuscitar esse modelo. Isso pode ser visto nas largas transferências do Tesouro para o BNDES, que hoje financia uma fração crescente dos investimentos privados a uma taxa de juros muito abaixo do mercado. Isso pode ser visto nas mudanças no marco regulatório do petróleo, com a Petrobrás assumindo um papel ainda maior na prospecção e investimentos do setor (note ainda o alto porcentual de compras locais da estatal, o que não leva em conta inteiramente diferencial de custos). Pode ser visto também na acelerada expansão do crédito por parte dos bancos públicos. De uma maneira ou de outra, aumenta-se a participação do Estado em diversos setores da economia, ao mesmo tempo em que se implanta e aumenta a proteção e os subsídios para setores e empresas da iniciativa privada.
A crise de 2008 deu o estofo ou argumento ideológico para a reação nacional desenvolvimentista. Ela seria o sintoma claro da falência do modelo neoliberal e indicação da necessidade de uma presença maior do Estado. Afinal, deu certo até o final dos anos 70, por que não daria agora?
Um problema é que, o que deu certo até 1980 também foi responsável por grande parte dos desequilíbrios e problemas posteriores. Mais ainda, deu certo em termos de crescimento, mas deu errado em termos sociais. Isso pode ser percebido pela péssima distribuição de renda que esse modelo nos legou, além das altas taxas de mortalidade infantil, a baixíssima escolaridade, o alto analfabetismo e índices de pobreza e indigência muito acima do que se esperaria de uma país com nosso crescimento e renda per capita. Em certo sentido, nada além do esperado de um modelo que privilegiava o investimento em capital físico em detrimento aos gastos em capital humano e educação.
A dimensão social, atualmente, está bem encaminhada. A pobreza vem caindo há vários anos de forma estável, a desigualdade de renda caiu para os níveis mais baixos desde 1960 e a renda de parcelas geralmente excluídas dos benefícios do crescimento, como os negros e as mulheres, vem crescendo a taxas chinesas. Há vários fatores por trás disso, destacando-se a estabilidade macroeconômica (que protege os mais pobres), a expansão da educação e uma agressiva política social ao longo dos últimos 16 anos.
Outro problema diz respeito ao próprio crescimento. Hoje sabemos que, na fase final do Milagre, os indicadores de produtividade (em queda) já apontavam um certo esgotamento do modelo. Faltou justamente ênfase em produtividade e educação. Ao mesmo tempo, a tentativa de manutenção de taxas aceleradas de crescimento começava a pressionar a inflação e o balanço de pagamentos, um sinal adicional de esgotamento. No fim do Milagre, a incapacidade (ou falta de vontade política) do governo em ajustar a economia após inúmeros choques externos - ao contrário, o governo acelerou investimentos - e a extensão e a intensificação da proteção comercial explicam grande parte de nossa estagnação econômica e queda da produtividade posterior.
As semelhanças com o momento atual não são pequenas: passada a crise econômica que justificou aumento anticíclico dos gastos, há grande resistência ao ajuste por parte de vários setores do governo e da sociedade. Há também enorme pressão por medidas protecionistas por parte de grupos que se sentem prejudicados pela concorrência chinesa e pela taxa de câmbio valorizada. Alguns sinais amarelos já são visíveis. A taxa de inflação se aproxima do teto da meta de inflação e, fora os preços administrados, a alta de preços é generalizada e atinge até mesmo o setor de serviços. O saldo em conta corrente se reduziu em mais de 4 pontos do PIB, apesar de um ganho de 40% na relação entre preços médios de exportação e importação.
Em boa parte, essas tensões espelham desafios fundamentais que se colocam ao País. No topo da lista está a frustrante dificuldade em se aumentar a taxa de investimento brasileira, que vem evoluindo lentamente para os atuais 18,4% do PIB, apesar dos esforços e subsídios do BNDES. Trata-se talvez da maior frustração econômica do governo Lula, que, com bom senso, reduziu significativamente o risco político do País, mas assim mesmo não conseguiu mobilizar nossos "espíritos animais". A nosso ver, a explicação para esse fenômeno está no par ideologia (de raízes nacional desenvolvimentistas) e dificuldades de execução (enraizadas em um Estado loteado e ineficiente).
Além da baixa taxa de investimento, o Brasil vive hoje um início de crise no mercado de trabalho. A crise não é a tradicional e terrível falta de emprego, mas sim a falta de trabalho qualificado, em todas as faixas. Uma comparação com a Coreia pode ser útil. Nos últimos 40 anos, a Coreia foi de uma renda per capita 30% inferior à nossa para um nível hoje 3 vezes maior! Isso foi possível porque a Coreia investiu muito mais e educou mais e melhor do que nós. A escolaridade média subiu de 4,3 anos para cerca de 13 anos (igual à americana), enquanto que a nossa foi de 2 anos para em torno de 7 anos. Além disso, a qualidade da educação coreana é excelente, enquanto que aqui ela é, na média, sofrível. Uma resposta mais eficaz aqui é urgente, nas três esferas de governo.
O Brasil está, portanto, diante de uma encruzilhada. Do jeito que as coisas vão, parecemos caminhar para uma repetição do modelo nacional desenvolvimentista, mas com uma taxa de investimento inferior à versão original. Em que pese o maior foco atual no social, não custa lembrar que essa opção foi não só excludente socialmente, como gerou uma série de distorções que provocaram a estagnação posterior. Podemos ter alguns anos de vacas gordas, mas estamos fadados a parar longe de completar a convergência para os melhores padrões globais.
Não existe uma única alternativa a esse caminho, mas alguns pontos são essenciais. Como bem indica a Coreia, o Brasil precisa investir e educar mais e melhor. O governo tem de promover as reformas necessárias para contribuir com a sua parte, investindo mais e gastando menos, e revalorizando a boa regulação para mobilizar o investimento privado. A promessa da presidente Dilma de aumentar a eficiência do Estado precisa ser cumprida através da ênfase na meritocracia por ela mesmo proposta. O atual cobertor curto no campo macroeconômico (inflação e juros altos, câmbio baixo) requer um ajuste fiscal mais convincente, que aborde com coragem as questões de longo prazo. Além de juros mais baixos, o setor privado precisa de um Custo Brasil menor, de uma estrutura tributária mais racional e de uma infraestrutura melhor, ao invés de subsídios que não merece. Desta forma, sobrará mais para programas sociais também. Enfim, há muito em jogo, muito a fazer, pouco tempo a perder. Repetir o passado parece-nos a pior das opções.
PEDRO CAVALCANTI FERREIRA É PROFESSOR DA ESCOLA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA DA FGV; ARMINIO FRAGA NETO, EX-PRESIDENTE DO BC, É SÓCIO-FUNDADOR DA GÁVEA INVESTIMENTOS 

sábado, 9 de abril de 2011

Para onde vai a economia com os improvisos do Governo?

Matéria exibida no Jornal Conta Corrente da GloboNews, em que foi entrevistado o economista Marcio Garcia, professor da PUC RJ.




Alguns questionam a falta de uma atitude firme do governo em conter a valorização do Real diante do dólar, e que o Banco Central fez o certo em não elevar a Selic fortemente e que os cortes no orçamento podem reduzir os investimentos públicos e gastos sociais.

Primeiro temos que esclarecer que o corte de 50 bilhões anunciado foi feito sobre um orçamento aprovado e que já previa gastos para 2011 maiores que o gastos efetivos do Governo Federal em 2010. Ou seja, mesmo depois do corte, o governo ainda gastará mais do que em 2010. Qualquer dúvida é só reler o comentário do Mansueto de Almeida.

Não há corte real, pois o governo ainda gastará mais do que em 2010. A redução do gasto público só seria real   se o montante do gasto fosse menor que em 2010. E por isto muitos se mostram céticos sobre estes cortes.

E um gasto elevado do Governo afeta tanto a taxa de juros quanto a taxa de câmbio, pois força uma elevação da Selic e uma apreciação do câmbio.

O resultado da tentativa do Governo em a valorização do Real e evitar que ele caia abaixo de R$ 1,60 é uma maior pressão inflacionária. Quando o câmbio flutua livremente, a elevação dos preços das commodities é atenuado pela valorização do câmbio, mas quando o governo evita que o câmbio caia abaixo de R$ 1,60, alguém tem que se mover para fazer o ajuste entre os preços e isto é feito pela inflação.

Hoje o que há é uma inconsistência entre as políticas do governo e uma falta de certeza para onde elas nos levarão.

Mas o Governo começa a perceber as contradições das suas medidas, tando que o Real chegou a cair a R$ 1,58.