quinta-feira, 24 de julho de 2008

Muito mais terra à vista

Especiais

Muito mais terra à vista

22/7/2008


Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Muitas são as críticas recentes que associam a alta na cotação de preços dos alimentos em nível internacional com o suposto aumento da produção de biocombustíveis, cenário que faz com que o Brasil seja fortemente acusado por outros países como um dos principais responsáveis pelo problema.

Levantamentos sobre a produção dos dois tipos de produtos, no entanto, mostram que essa hipótese não é verdadeira: diferentes estudos realizados no país e no exterior mostram, de fato, o acréscimo no preço dos alimentos produzidos em todo o mundo. Mas é importante lembrar que esse aumento ocorreu, progressivamente, também em outros setores da economia mundial, afetando commodities como petróleo, cobre e alumínio.

O quadro foi apresentado na semana passada em conferência proferida pelo reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Tadeu Jorge, na 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Com base em estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Tadeu Jorge destacou que a soja e o arroz foram os alimentos que tiveram o maior aumento de preços entre 2000 e 2008. O custo da unidade da saca da soja pulou de US$ 11,40 para US$ 28,70 no período, enquanto o arroz passou de US$ 7,25 para US$ 28,41 e, o milho, de US$ 5,31 para US$ 14,18.

Ao mesmo tempo, os preços do barril do petróleo subiram de US$ 28 para cerca de US$ 150, acompanhado por elevações nos valores do cobre, cujo preço pago por tonelada no mercado internacional subiu de US$ 1,8 para US$ 8 de 2000 a 2008, e nos preços do alumínio, que também aumentou de US$ 1,54 para US$ 2,85.

"Essa tendência de alta muito semelhante entre as commodities é uma forte evidência de que não há relação direta da alta de preços dos alimentos por causa dos fatores relacionados com a produção de etanol. Acredito que ninguém tenha substituído a produção de petróleo ou alumínio para dar lugar ao plantio de cana para produção de etanol ", disse o também professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp.

"Estamos diante de uma questão mais puramente econômica do ponto de vista global, do que propriamente um problema localizado. Uma das conclusões para o aumento significativo dos preços é o crescimento da demanda mundial por diversos tipos de alimentos, que é o tipo de demanda que cresce mais cedo e mais rápido quando há aumento de poder aquisitivo da população”, disse.

Gráfico da área plantada

Após analisar os números de área plantada para a produção de diferentes tipos de alimentos no Brasil, Tadeu Jorge citou o exemplo da área plantada de arroz, que vem caindo no Brasil, passando de 6,6 milhões de hectares na safra 1980/81 para cerca de 3 milhões na safra 2005/06, devido, segundo ele, principalmente ao aumento do rendimento das novas variedades do grão, e mais uma vez não pela expansão da cana.

Embora a área plantada de arroz tenha caído, a produção do grão subiu de 10,5 milhões de toneladas na safra 1986/87 para 11,7 milhões de toneladas em 2005/06. De acordo com ele, a área plantada de soja no Brasil subiu de 8,6 milhões de hectares na década de 1980 para mais de 22 milhões de hectares na safra 2005/06.

"Isso significa que o Brasil está ofertando mais soja no mercado internacional e, mesmo assim, os preços desse grão continuam subindo, o que rigorosamente não tem nada a ver com substituição de área de soja no país para o plantio de cana”, disse.

“Não há parcela de responsabilidade do etanol brasileiro na questão do preço dos alimentos no mercado internacional. A agropecuária é um negócio e, como qualquer outro, quando a demanda aumenta quem produz alimentos quer ganhar mais dinheiro", pontuou o engenheiro de alimentos.

Tadeu Jorge mostrou dados sobre o uso da terra no Brasil, que destina cerca de 237 milhões de hectares para pastagens, o que representa 81% da área agricultável utilizada no país atualmente, 21 milhões de hectares para soja (7%), 12 milhões de hectares para milho (4%) e 5,4 milhões de hectares para cana-de-açúcar (2%), sendo que 60% da produção de cana no país está concentrada no Estado de São Paulo.

Laranja ou cana-de-açúcar?

Tadeu Jorge afirmou ainda o que talvez muitos brasileiros gostariam de ouvir: o Brasil tem potencial para compatibilizar a demanda por álcool e a produção e exportação de alimentos. “Essas são duas grandes oportunidades distintas que hoje se oferecem para o Brasil no mercado internacional”, ressaltou.

“O país tem terra suficiente para plantar as culturas de interesse de acordo com as tendências internacionais, seja laranja, para que continue na liderança mundial de exportação de sucos da fruta, ou cana para a produção de etanol. Se estamos falando de um negócio, o que interessa é o valor econômico”, disse.

Dos 851 milhões de hectares de área do território brasileiro, 470 milhões não podem ser usados por serem considerados herança para o futuro da humanidade, que são as áreas da Amazônia e outros biomas e reservas do país, além dos centros urbanos. Do total do território, 220 milhões de hectares são usados ainda para a produção animal e cerca de 70 milhões de hectares são as áreas utilizadas atualmente no agronegócio.

“Temos pelo menos 90 milhões de áreas agricultáveis, ou seja, que têm vocação agrícola e que teoricamente estão prontas para uso em nosso país. Temos uma área potencial maior do que toda a que está sendo usada hoje. Nenhum outro país no mundo possui uma condição como essa: uma área potencial que pode ser usada para aumentar a produção agrícola nacional sem causar nenhum dano ambiental”, afirmou.

Entretanto, para utilizar toda essa área agricultável de maneira sustentável, na visão do reitor da Unicamp, o Brasil necessita de uma política agrícola diferente de todas que o país já teve. “Precisamos de uma política agrícola fundamentada nos conceitos da agropecuária a fim de qualificar toda a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, que ainda tem muitas características de empirismo e amadorismo”, observou.

“O Brasil já contou com muitos planos econômicos voltados a setores específicos da agricultura, o que também é importante, mas não é disso que precisamos para darmos conta do crescimento da produção de etanol sem que isso ocorra em detrimento da produção de alimentos”, explicou.

A importância de investir nesse setor Tadeu Jorge deixou bem claro: o agronegócio é responsável por aproximadamente 36% do total das exportações brasileiras, responde por 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e emprega cerca de 37% da população brasileira. “Sempre ouvimos falar que o Brasil é o celeiro do mundo e iria abastecer o mundo inteiro. De fato a verdadeira vocação brasileira é o agronegócio”, defendeu.

Tadeu Jorge mandou ainda um recado para a comunidade científica, alertando para o fato de que o debate sobre a produção de alimentos e de biocombustíveis no Brasil tem sido conduzido de maneira bastante parcial: "Os setores olham essa questão de acordo com seus interesses e teorias, mas na academia essa visão deve ser analisada em suas múltiplas facetas, de preferência sem muita paixão", disse.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Valorização do Real e alta dos juros são "bombas-relógio" para indústria

: Convergência Digital :: 21/07/2008

Em pesquisa realizada com seus associados, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee) apurou que três itens acendem o "sinal vermelho" para o segundo semestre no setor eletroeletrônico: A taxa de câmbio, a elevação do juro e o retorno da inflação.

No caso do câmbio, o Real prossegue supervalorizado em relação ao Dólar. A moeda norte-americana fechou nesta segunda-feira, 21/07, a R$ 1,58, a menor taxa desde janeiro de 1999. Já em junho, a Abinee alertava que se nada fosse feito, era possível que diante do cenário internacional, a moeda norte-americana terminasse o semestre cotada até a R$ 1,50.

O presidente da Abinee, Humberto Barbato, é incisivo: O país carrega "bombas-relógio" que podem estourar a qualquer sinal de instabilidade na economia nacional - a taxa de câmbio supervalorizada e a elevação dos juros.

Nesta segunda-feira, 21/07, a moeda norte-americana caiu 0,57% e fechou a R$ 1,58. Especialistas do mercado creditam a nova baixa ao bom humor da Bolsa de Valores de São Paulo e aos movimentos do mercado de câmbio no cenário externo.
Na próxima quarta-feira, o Comitê de Política Monetária - Copom - irá divulgar sua decisão sobre a taxa Selic - que é que controla os juros. Há uma expectativa de elevação porque o perigo da volta da inflação ronda o mercado nacional.

Balança comercial: Perigo constante

A valorização excessiva do Real frente ao dólar atinge em cheio a balança comercial brasileira. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, por diversas vezes, dentro do seu jeito político, criticou duramente a atual política que rege o câmbio no país. Mas são reclamações que terminam no vazio. Os responsáveis pela economia não parecem dispostos a mudar a estratégia e defendem a tese que o câmbio se "auto-regula".

Neste ritimo, o saldo da balança comercial brasileira (exportações menos importações) até a terceira semana de julho estava em US$ 13,339 bilhões, 41,8% menor do que o registrado no mesmo período de 2007 (US$ 22,934 bilhões). No acumulado do ano, as exportações somam US$ 102,489 bilhões e as importações, US$ 89,150 bilhões, de acordo com informações divulgadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O motivo para a redução do saldo comercial é o crescimento das importações em ritmo maior do que das exportações. O dólar mais barato e o aumento da renda dos brasileiros favorecem as importações de produtos. Em julho, com o superávit comercial de US$ 459 milhões na terceira semana do mês, o saldo está em US$ 1,989 bilhão. Na terceira semana, as vendas ao exterior chegaram a US$ 4,362 bilhões e as compras, a US$ 3,903 bilhões. No mês, as exportações somam 11,844 bilhões e as importações chegam a US$ 9,855 bilhões.

O que será do Segundo Semestre?

A taxa de câmbio é uma preocupação constante na Abinee. Na visão da entidade não há setor da indústria beneficiado pela valorização do Real tão acirrada frente ao Dólar. Isso porque do ponto de vista do capitalismo global, em muitos casos, importar o produto acabado é muito mais "barato" do que investir na manufatura local, onde há custos de mão-de-obra e de impostos.

Pesquisa realizada pela Abinee com os seus associados sobre os temas de discussão para o segundo semestre, três itens apareceram em destaque: Taxa de câmbio, a elevação dos juros e o retorno da inflação. Questões interligadas e cruciais para o desempenho da indústria.
"Carregamos duas bombas-relógio (taxa de câmbio e juros altos) que podem estourar a qualquer momento se houver qualquer contratempo na economia brasileira", atestou em documento para os associados, o presidente da Abinee, Humberto Barbato.

No mês passado, o executivo já alertava: se nada fosse feito com relação à taxa de câmbio, era bem possível que ainda no primeiro semestre do ano, a cotação do dólar - numa visão bastante negativa - chegasse a R$ 1,50. A moeda está cotada a R$ 1,58. Ainda de acordo com Barbato, ao insistir nessa política, o governo brasileiro vem colhendo os resultados de seus erros: o déficit da Balança Comercial.

Barbato alerta que o próprio ministério da Fazenda avalia que a manutenção do Real tão valorizado frente ao Dólar, "tende a abrir um buraco nas contas externas do país no médio prazo. Setores exportadores serão fortemente afetados e a geração de empregos poderá declinar nos próximos meses".

Leão: Imposto sem fim nos cofres públicos

Em contrapartida, o Governo nunca arrecadou como agora. Dados divulgados pela Receita Federal nesta segunda-feira, 21/07, apuram que a arrecadação de Imposto sobre Operações Financeiras no primeiro semestre rendeu ao governo R$ 8,395 bilhões, 197,68% a mais do que os R$ 2,820 bilhões do mesmo período de 2007.

Essa variação diz respeito ao que foi arrecadado do IOF que incide sobre as operações de crédito e de câmbio, tanto de pessoas jurídicas quanto de pessoas físicas. No total, a arrecadação de IOF total cresceu 151,46%. O aumento da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) das instituições financeiras de 9% para 15%, resultou em um aumento de recolhimento de 29,55% no período.

A tributação nas operações de crédito e o aumento da CSLL foram medidas adotadas pelo governo para compensar a perda de arrecadação com a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, extinta no início deste ano, com previsão de recolher aos cofres cerca de R$ 40 bilhões.

Para a Receita, além da tributação nas operações de crédito, o resultado foi decorrente do desempenho da economia e das ações administrativas desenvolvidas pela Receita Federal e pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional.

Apenas com a recuperação dos débitos em atraso, incluindo multas, juros e depósitos judiciais, o crescimento real da arrecadação administrada pela Receita Federal chegou a 135%, passando de R$ 1,433 bilhão para R$ 3,367 bilhões.

Quanto aos fatores econômicos, a Receita Federal destaca a maior lucratividade das empresas, com um crescimento geral de vendas de 14,2%, aumento da massa salarial de 14,45%, crescimento de 46,82% no valor do dólar das importações e o aumento de 6,7% na produção industrial.

Em junho, o total de impostos e contribuições bateu novo recorde ao atingir R$ 55,747 bilhões. No acumulado do ano, o resultado também foi recorde e chegou a R$ 327,672 bilhões em termos nominais e a R$ 333,208 bilhões se o valor for corrigido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), utilizado oficialmente pelo governo para medir a inflação.

O resultado do semestre teve crescimento 10,43% em comparação ao mesmo período do ano passado, mesmo depois de extinta a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), no início deste ano.*Com informações da Agência Brasil e da Assessoria da Abinee
-- Texto sugerido por André Luiz Norbim, estudante de Aministração na UFES e mais novo colaborador do blog!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Bases de Dados Abertas

O compartilhamento de músicas pela internet afeta a venda dos Álbuns? Estudos empíricos devem disponibilizar suas bases de dados? São esses temas que são debatidos nesta reportagem, indicado pelo Gustibus.

A reportagem é meio longa mas vale a pena, está se discutindo qual as formas de validação de um estudo empírico/econométrico.
Este é um problema sério em economia, são diversas as controvérsias empíricas sobre vários temas que se arrastam por décadas. No Brasil algumas controvérsias são alimentadas por simples má fé, mas no mundo econômico em geral existe espaço para discussões de todos os tipos, desde se realmente o salário mínimo aumenta o desemprego, passando sobre se o aborto diminui a criminalidade, até se o cigarro deveria ser menos taxado pelo governo.

Mas pelo menos em uma coisa a ciência econômica tem melhorado, é cada vez mais comum a exigência ao autor da pesquisa empírica publicar junto com o artigo a base de dados utilizada.

If Mr.Oberholzer-Gee and Mr. Strumpf's paper were submitted today, it is not clear whether it would be accepted by the Journal of Political Economy. In 2006, partly at Mr. McCullough's urging, the journal adopted transparency rules that require authors to post their data and statistical models on the journal's Web site.

As far as Mr. McCullough is concerned, the authors' inability to share the data will forever cast a cloud over the paper. "If they are not making their data and code available, then I have to think that they have something to hide," he says. "There is a lot of nonreplicable research published in economics. We need to change the profession so that readers can expect that there actually does exist data and code that will reproduce the published results. Right now, at many journals, we cannot expect that."

segunda-feira, 14 de julho de 2008

domingo, 13 de julho de 2008

Crise americana - corrida aos bancos

Correntistas correm ao banco Indymac e sacam mais de US$ 1 bilhão! A coisa tá ficando preta.

Retirado do G1.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Escolas de Economia

Um texto velho, mas atual, sobre as principais escolas de economia do país.

Escolas de economia rechaçam ideologia
03/11/2004

Folha de São Paulo

Maria da Conceição Tavares, economista da UFRJ, dizia na semana passada que não há macroeconomia de esquerda. Uma semana antes, longe dos holofotes, Rogério Werneck, diretor do Departamento de Economia da PUC-RJ, afirmara que tampouco existe teoria econômica de direita. Um passeio por cinco dos principais centros de economia do país mostra que os economistas que passam pelos seus cursos de graduação dificilmente saem de lá com alguma tinta ideológica que não tinham ao entrar. A maioria está realmente preocupada em preparar-se bem para a entrada no mercado de trabalho, e os cursos refletem essa preocupação.
As doses são diferentes, mas a receita não muda: um pouco mais de história e sociologia na Unicamp e na UFRJ, os centros mais "heterodoxos", um pouco mais de matemática e estatística na USP, na PUC-RJ e nos cursos da FGV no Rio e em São Paulo.
Márcio Percival, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, diz que, além do tradicional espírito crítico dos campineiros e da preocupação com a realidade brasileira, a idéia do curso de graduação é garantir o que poderia ser chamado de "empregabilidade" dos alunos. "Há uma preocupação muito forte com a prática. Preocupação refletida nos laboratórios incluídos no curso", diz.
Marcos Fernandes, coordenador da Escola de Economia de São Paulo da FGV, cuja primeira turma de graduação começou neste ano, diz que a escola tem a mesma preocupação: de confrontar os alunos com a realidade brasileira e ao mesmo tempo oferecer uma boa formação teórica e prática. História que se repete nas escolas do Rio e na USP.
Mas as coisas mudam quando acaba a graduação.
Os diretores de cada escola ressaltam a ausência de qualquer orientação ideológica nos cursos de pós-graduação -exceção feita à Unicamp, que assume que privilegia uma linha de pensamento. Independência e diversidade, dizem seus respectivos diretores, são a marca da PUC-RJ, da FEA-USP e dos programas de pós em economia da FGV no Rio e em São Paulo.
Um bate-papo com os pós-graduandos muda as coisas de figura. Eles são mais práticos e menos diplomáticos do que seus professores. Quer fazer mestrado, aprender bem a fazer modelos, trabalhar no mercado financeiro ou ir estudar fora? Seu lugar é a PUC-Rio. Gosta de matemática, teoria, nem tanta aplicação e pesquisa de ponta? Vá para a FGV-Rio. A Unicamp é procurada pelos que, já pendendo para a heterodoxia, não são muito afeitos aos modelos matemáticos. A UFRJ está em algum lugar entre a Unicamp e a FGV-SP. Na FEA, quem consegue entrar pode sair marxista ou microeconomista.
Leve-se em conta que a caricatura tende a exagerar os detalhes, mas tem sim um fundo de verdade. O responsável pela pós-graduação da EPGE (Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV), por exemplo, é o economista e estatístico Aloisio Araújo. Araújo é hoje o pesquisador brasileiro que mais publica em revistas e periódicos internacionais na área de economia. Parte por conta do trabalho dele, a EPGE é o único centro com programa de pós-graduação avaliado com nota máxima pelo Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) do Ministério da Educação. "Nosso objetivo é desenvolver teoria de ponta, na área de macro ou micro", diz o pesquisador. Trabalho que, explica, depende de treinamento profundo em estatística e matemática. A escolha, argumenta, não tem nada a ver com ideologia, mas com a opção de debater e pesquisar o que de mais moderno e avançado se discute sobre economia nos grandes centros de pesquisa. "Você pode pesquisar o mosquito brasileiro com o microscópio francês se for o melhor equipamento disponível", diz Araújo.
Ricardo Carneiro, da Unicamp, desconfia das simplificações que os modelos acabam impondo. Escola, como a UFRJ, influenciada pelas teorias desenvolvidas pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), a Unicamp nasceu fazendo a crítica dos economistas liberais, na década de 60 -época em que ortodoxos e heterodoxos se batiam por temas como protecionismo, planejamento e industrialização induzida pelo estado. "Economia não é ciência natural. Existem opções políticas, interações históricas. As teorias não valem em qualquer circunstância. Elas têm que estar associadas à história", rebate Carneiro. A crítica é compartilhada com parte dos economistas da UFRJ. Para lá, seguem também os pesquisadores interessados nos desdobramentos das teorias do economista Joseph Schumpeter (1883-1950), especialmente sobre a noção do papel dos empresários, das empresas e da inovação tecnológica no desenvolvimento. Também na UFRJ, diz o diretor João Sabóia, a diversidade é a lei. Os pós-graduandos do próprio instituto têm opinião um pouco diferente, e poderia ser resumida assim: é mais fácil ser ortodoxo na PUC-RJ, cujo campus está a 15 minutos do da UFRJ.
Não é apenas o uso de métodos quantitativos que divide os pesquisadores. Não se trata tampouco de classificar os que são mais "chegados" à matemática de ortodoxos. Afinal, lembra Werneck, da PUC-RJ, em épocas de ascensão do socialismo, liberal podia estudar cálculo, mas álgebra linear era "coisa da esquerda". Werneck dirige o departamento justa ou injustamente mais identificado com a ortodoxia no Brasil. Em parte, porque saíram de lá os principais formuladores da política econômica pós-Real -passaram pelo PUC economistas como Gustavo Franco, Edmar Bacha, Pérsio Arida. O rótulo, como os de esquerda e direita, tampouco agrada aos pesquisadores do departamento. Mas a PUC-RJ certamente é um dos mais coesos entre os cinco centros. Papel da ideologia de mercado? Não, questão de tamanho. Enquanto a USP tem 78 professores de economia, na PUC-RJ eles são apenas 17. Visões diferentes sobre a própria natureza do estudo de economia poderiam tornar o debate impossível. Mas ainda assim ele ocorre. E com algumas surpresas. Da PUC sempre associada ao mundo financeiro saíram importantes pesquisas sobre políticas sociais. Mais precisamente sobre a eficiência do gasto público na área. De lá saem pesquisadores que olham para a necessidade de focalização do gasto social: o gasto do governo deveria ser redirecionado para os mais pobres. Dadas as afinidades entre a EPGE e a PUC era esperado que Araújo tivesse opinião parecida. Mas ele surpreende ao dizer que em alguns casos políticas universais são mais eficientes. Desse ponto de vista, ele fica lado a lado com Lena Lavinas, da UFRJ, que não concorda muito com as opiniões de seu colega de instituto, André Urani.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Brasil, etanol e a desconfiança do mundo

The Economist mostra ao mundo - e principalmente aos Estados Unidos - que o Brasil não é o vilão nessa história de aumento dos preços dos alimentos.

The United States may drop a tariff on Brazilian ethanol. But the industry is still the victim of much misplaced criticism

Pronto, agora esse papo de culpar o plantio de cana não cola mais. The Economist falou, tá falado.