quarta-feira, 25 de junho de 2008
O bolsa-família ajudou significantemente na reeleição do Lula?
Todos devem lembrar que a imprensa divulgou amplamente na época da eleição que o bolsa-família (BF) era um dos grande responsáveis pela liderança do Lula no nordeste. Pois bem, passadas as eleições o cientista político Jairo Nicolau apresentou um trabalho no INAE, demonstrando por mínimos quadrados ordinários (MQO) e levando em conta toda a população das cidades que o BF teve sim um impacto significantemente positivo na votação do Lula.
Então 5 economistas (entre eles, o Shikida do Gustibus e o Leonardo Monastério) fizeram um estudo mais sofisticado com econometria espacial, correção de erros autocorrelacionados espacialmente (afinal, cada município é influenciado e influência os municípios ao redor) e fez 3 regressões diferentes tendo como variável explicativa o a quantidade de beneficiário do BF pela população, pelos pobres e pelos indigentes.
O resultado foi que o BF perde sua significante influência na reeleição do Lula.
Mas poucos ficaram felizes com o trabalho, os cientistas políticos tenho certeza que não entenderam, nenhum jornal divulgou a "descoberta" e mesmo o economistas não tem muita certeza sobre a validade destes tipos de estudo. Lembro de um trabalho, no encontro da Anpec do ano passado, de uma doutoranda da UFPE que apresentou resultados preliminares divergentes, e não confiava no resultados do trabalho de Shikida e cia, pois ele utilizava a distribuição normal e não a distribuição Beta que ela achava melhor, pois só variava entre 0 e 1. Eu mesmo, se estivesse trabalhando com essa base de dados teria sugestões de diferentes regressões, como ponderar os municípios pelo número de habitantes ou número de eleitores...
Obviamente o problema metodológico, não é se o estudo econométrico corrige os erros espacialmente correlacionados ou não, se utiliza a distribuição beta ou à normal, se as observações são ponderadas pelo tamanho da população ou não, o problema é que falta um método, faltam regras claras para definir qual estimativa é melhor que a outra.
Retórica Econômica
Segundo Deirdre McCloskey's , a principal autora desta área, a modelização, as provas matemáticas e as provas de equilíbrio, em geral não ajudam na evolução da ciência econômica, assim como muitos dos testes econométricos, que deveriam se importar mais com a importância econômica das variáveis e não com sua significância estatística. Em seu livro “The secret sins os economics” ela deixa claro que matemática e estatística são excelente ferramentas, e que a economia deve sim utilizá-las. Mas a economia sofre de um excesso de modelagem na qual diferentes modelos são criados modificando apenas algumas premissas básicas, ai fica uma espécie de joguinho com cada modelo ressaltando um aspecto especifico e nenhum deles consegue convencer os outros autores que o seu modelo é melhor.
A econometria sofre de um problema similar, são tantas as formas de se estimar um modelo, de testar uma causalidade que isso gera muita controvérsia, os resultados quanto mais sofisticados se tornam, menos confiança passam.
Economics in its most prestigious and academically published versions engages in two activities, qualitative theorems and statistical significance, which look like theorizing and observing, and have (apparently) the same tough math and tough statistics that actual theorizing and actual observing would have. But neither of them is what it claims to be. Qualitative theorems are not theorizing in a sense that would have to do with a double-virtued inquiry into the world. In the same sense, statistical significance is not observing.
E o pior, é que esse excesso de formalismo acaba por ampliar as controvérsias e os abismos que separam os ortodoxos e heterodoxos, gerando debates e controvérsias que duram séculos, pela falta de uma retórica oficial persuasiva a respeito do que os economistas consideram persuasivo.
The mathematical and statistical tolls that gave promise in bright dawn of the 1930 and 1940 of ending economic dispute have not succeeded, because too much has been asked of them. Believing mistakenly that operationalism is enough to end all dispute, the economist assumes his opponent is dishonest when he does not concede the point
Segundo McCloskey a base para se aceitar ou rejeitar uma teoria econômica deveria ser sua capacidade de persuadir, convencer os outros com base na plausibilidade de suas idéias ou não.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
O Surgimento da Retórica Econômica
A retórica econômica é uma escola pequena, mas bastante festejada pela ala heterodoxa, apesar de se basear no ortodoxismo e fazer uma crítica interna da metodologia do mesmo. A escola surge a partir das limitações do positivismo econômico.
Qual curva de Phillips, a tradicional ou a aceleracionista, devemos utilizar? Para os positivistas/ortodoxos é fácil responder a pergunta, basta estimar os dois modelos (que são igualmente úteis) e verificar em qual dos dois as previsões se aproximam mais da realidade.
Qual função consumo devemos utilizar a de Keynes (C = Co + C1*Y) ou a função da renda permanente de Friedman? Ai já depende da situação, pois apesar de a função da renda de Friedman ser mais compatível com a realidade, ela requer mais informações, sendo um modelo mais complexo e, portanto, menos útil. Então, ao contrário da curva de Philllips, em que um modelo deve ser abandonado para a utilização do outro, neste caso ambos os modelos podem ser utilizados dependendo da quantidade de informações que a pessoa tem para utilizá-los.
A controvérsia macroeconômica da década de 80 surgiu de uma situação parecida, os modelos hegemônicos na época (os neo-keneysiansos) utilizavam a técnica econométrica da identificação das equações de demanda, oferta... e depois as consideravam estáveis e faziam previsões com elas.
Havia diversas críticas aos modelos neo-keneysianos, mas elas eram quase todas normativas (vide post anterior: irrelevantes na prática), uma delas era a de que esses modelos não incorporavam o papel das expectativas, a pergunta clássica era: Se vocês, economistas, sabem como o mercado vai se comportar, por que é que vocês ainda não estão ricos? (Comentário parecido com o post que questiona a validade das análises técnicas na Bolsa)
Até então era só mais uma critica normativa irrelevante, até que Robert Lucas na década de 70 começou a fazer modelos macroeconômicos, no qual as base microeconômicas eram diversos agentes que na média não erravam suas previsões, eram modelos de equilíbrio geral estocásticos dinâmicos, difíceis de se aplicar sem um computador, mas úteis especialmente para a área financeira.
A controvérsia poderia ter terminado ai, se utilizaria os modelos novos-clássicos para a área financeira e os neo-keneysianos para o apoio à decisão no governo, mas não terminou. Os novos-classicos demonstraram que seus modelos trazem conclusões claras para a tomada de decisão do governo, conclusões diferentes das dos neo-keneysianos.
Estava instalada a controvérsia, qual dos modelos deve ser seguido? Segundo o positivismo, se os dois modelos são igualmente úteis, o que tiver melhores previsões é o que deve ser utilizado, raciocínio perfeito, mas neste caso ambos os lados diziam (oficialmente) que seus modelos tinham melhores previsões e como ambos testes econométricos eram diferentes não havia como chegar a um ponto comum.
O problema ficou claro com um livrinho de 1983 organizado por Arjo Klamer, Conversations With Economists: New Classical Economists and Opponents Speak Out on the Current Controversy in Macroeconomics, que decidiu entrevistar os principais economistas envolvidos na controvérsia e descobriu que as objeções de um economista com os modelos do outro eram variadas, cada um dizia na entrevista preferir o seu modelo por diversos motivos em geral pouco ligados a metodologia corrente (ao positivismo) e a seus testes econométricos. No mesmo ano, 1983, Deirdre McCloskey's escreveu um paper seminal sobre o assunto "The Rhetoric of Economics".
A partir desses 2 trabalhos surgiu essa pequena escola econômica, que busca estabelecer uma metodologia econômica capaz de convencer todos os economistas de quais são as teorias econômicas úteis e em que eles devem concentrar os seus esforços, afinal é apenas em economia que controvérsias duram décadas e até séculos.
No próximo post escreverei os principais postulados desta escola.
domingo, 22 de junho de 2008
O petróleo está caro?
Bom, eu não sou nenhum estudioso da commodity para saber se o petróleo realmente está caro ou não... todavia, parece que o preço está alto e já está incomodando muita gente, pois o assunto está sempre à tona e afetando os humores dos investidores.Ok. Considerando que esteja alto, o que poderia ser feito para se contornar a situação?
A resposta mais óbvia seria: aumentar a oferta. Mas os países consumidores não controlam os países produtores! Não podem simplesmente chegar para a OPEP, para o Chávez ou qualquer outro magnata do petróleo e ditar a quantidade a ser produzida! Uma cooperação internacional poderia até resolver o problema... contudo, parece muito improvável.
Outra solução possível seria desenvolver os substitutos do petróleo. Mas isso é para o longo prazo. O preço está subindo hoje.
E então, o que restaria a fazer?
Bom, para reduzir o preço do petróleo, um meio econômico alternativo seria: SUBIR AS TAXAS DE JUROS! Principalmente os EUA, pois uma alta nesse país desencadearia altas em outros países.
A medida afetaria três fatores que contribuem para o aumento do preço do ouro negro:
- desvalorização do Dólar;
- especulação com o preço do petróleo;
- aumento da demanda.
O primeiro caso é óbvio. O aumento da taxa de juros reduziria a oferta de Dólar, conseqüentemente valorizando a moeda norte-americana.
Já quanto ao segundo caso, o aumento da taxa de juros estimularia os produtores de petróleo a aumentar a produção, uma vez que a expectativa de aumento do preço do petróleo poderia não compensar o custo de oportunidade de deixá-lo no subsolo ou estoque. Além disso, desestimularia fundos que estejam especulando em mercados futuros, tanto pelo aumento da oferta, quanto pelo próprio aumento da taxa de juros. Se houvesse bolha, seria desfeita.
O terceiro caso também é autoevidente. Um aumento da taxa de juros arrefeceria a demanda mundial, diminuindo o hiato entre consumo e produção.
Seria uma boa solução? Acho que não, pois há vários outros efeitos colaterais que essa medida pode provocar. Contudo, não deixa de ser algo factível.
Com o problema do Subprime, é provável que os EUA não mexam na taxa de juros por algum tempo. Entretanto, a inflação está à porta e, se o preço do petróleo continuar subindo, não seria de se estranhar um novo choque do petróleo andando de mãos dadas a um novo choque das taxas de juros internacionais.
PS.: Participem mais galera, comentando ou publicando no Blog!
Abraços!
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Por que as Críticas Heterodoxas não são Levadas a Sério? 2
Lendo os comentários de Ricardo, João e de um anônimo, ao post anterior decidi fazer outro para poder esclarecer melhor o assunto.
A questão central da teoria econômica ortodoxa (positiva) é ser útil. A questão é sempre em que circunstâncias eu posso aplicar a teorias econômicas. A questão central dos heterodoxos (eles são muitos e variados, por isso falo no geral, isto é, falo dos normativos) é ser exato e só utilizar pressupostos observáveis.
Os ortodoxos buscam a teoria econômica útil, que possa ser aplicada a uma série de fenômenos diferentes (dai o imperialismo econômico nas ciências sociais), já os heterodoxos buscam a teoria econômica verdadeira, a que será obtida logico-indutivamente através de alguns pressupostos verdadeiros.
Certa confusão talvez possa ter sido causada por dois fatos históricos;
1- 1-Pelo desenvolvimento da escola do equilíbrio-geral, da economia matemática dos neowalrasianos que embora tenha sugeridos diversos avanços para outras escolas, nunca serviu pra muita coisa a não ser “construir castelos de cartas no ar”.
2- 2-Pelo posicionamento dos primeiros neoclássicos no século XIX, que acreditam que os pressupostos dos seus modelos eram verdades observáveis, daí aquelas metáfora sobre Robinson Crusoé...
Pois bem, tanto os principais avanços ortodoxos se deram no campo do equilíbrio-parcial (afinal construir castelos no ar não serve pra nada), como eles pararam de acreditar na veracidade dos pressupostos de seus modelos e se tornaram positivistas, sendo o ensaio de Friedman, de 1953, sintomático sobre o assunto.
Resumindo, para os ortodoxos “a verdadeira função dos modelos é ajudar o analista a dar chutes melhores”, e não ficar discutindo se os pressupostos do modelo são compatíveis ou não com a realidade como fazem os heterodoxos.
Por confundir uma coisa com a outra, acho que João (assim como muitos economistas que foram inicialmente heterodoxos) em breve irá se reconhecer como positivista, e logo depois como ortodoxo.
Afinal, como diria o estatístico George Box, “Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis.”
Obs: A controvérsia macroeconômica dos anos 80 fez surgir uma nova escola a da Retórica Econômica que questiona exatamente o excesso de econometria e matemática, comentado por João, mas isso será tema para outro post. O blog metamorfose tem uma coleção de posts sobre metodologia muito bons.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Calourada, dia 28, Ilhacústico!
terça-feira, 17 de junho de 2008
Por que as Críticas Heterodoxas não são Levadas a Sério?
Em geral, as críticas heterodoxas são baseadas num raciocínio lógico-indutivista no qual a validade das conclusões depende da validade das hipóteses.
Não são poucos os pressupostos ortodoxos que foram colocados em xeque por críticas deste tipo; o processo de maximização dos agentes foi questionado por Herbert Simom, a validade das funções de produção pela controvérsia de Cambridge, o individualismo metodológico pela falácia da composição, a utilização de modelos ergódicos pelos pós-keneysianos, entre outras diversas críticas...
Em geral elas advogam pela utilização de uma base não falsa, e de premissas não equivocadas para a construção de uma ‘teoria economica séria’, eles estão aqui discutindo como uma teoria econômica deveria ser (“ought to be”), fazendo uma analise normativa da teoria econômica.
Contudo atualmente a maioria dos economistas ortodoxos não busca a ‘séria’ ou a verdadeira teoria econômica, a maioria deles está em busca da teoria econômica útil.
O ensaio de Milton Friedman, “The metodology of positive economics” em 1953, encaminhou os economistas ortodoxos para uma abordagem positivista. A idéia é que a as premissas passam a ter caráter meramente instrumental de acordo com sua capacidade de auxiliar na previsão de eventos futuros. Neste raciocínio as premissas econômicas não devem ser avaliadas pela sua validade empírica, mas pela sua utilidade instrumental.
(…) The formula s = ½ gt2 is valid for bodies falling in a vacuum and can be derived by analyzing the behavior of such bodies. It can therefore be stated: under a wide range of circumstances, bodies that fall in the actual atmosphere behave as if they were falling in a vacuum. In the language so common in economics this would be rapidly translated into: the formula assumes a vacuum. (…) The formula is accepted because it works, not because we live in an approximate vacuum - whatever that means. (Friedman, 1953)
Such a theory cannot be tested by comparing its “assumptions” directly with “reality.” Indeed, there is no meaningful way in which this can be done. Complete “realism” is clearly unattainable, and the question whether a theory is realistic “enough” can be settled only by seeing whether it yields predictions that are good enough for the purpose in hand or that are better than predictions from alternative theories. (Friedman, 1953)
Off-Topic: Seria legal ter uma manifestação como essa no ES também.
domingo, 15 de junho de 2008
ENECO
Pessoal, as inscrições para o ENECO já estão abertas!Para nós, do sudeste, o valor da inscrição será de R$80,00 (com alojamento na UESC e alimentação no RU da UESC) e o valor do pacote de festas será de R$60,00.
Acesse: http://eneco2008.org/
Para ser honesto, o site ainda está deixando a desejar, com poucas informações sobre o evento... os dias estão passando e a programação ainda não está toda confirmada!
Mas é sempre assim... no final das contas o ENECO sempre é FODA e aconselho MUITO a ir (isso para quem não estiver trabalhando para gerar mais-valia para o capital ou para quem tiver um chefe muito gente boa, porque o evento é uma semana inteira).
Abraços!
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Lei de Say (texto 1)

Introdução
Esse texto é dedicado aos calouros e pós-calouros (1º 2º e 3º períodos), e a todos os outros alunos que tanto escutaram sobre a famosa “lei” atribuída a Jean Baptiste Say, mas que nunca tiveram um professor que falasse um pouco mais detalhadamente sobre ela.
A princípio, um aluno com alguma capacidade crítica pode achar a Lei de Say absurda, muito simples ou ridícula, afinal, é muito provável que seu primeiro contato com ela seja a frase consagrada por Keynes - “toda oferta cria sua demanda” – que fora de contexto parece um completo non-sense. O aluno mais travesso poderia até objetar ao professor: “Como assim, toda oferta cria automaticamente sua procura? Então, se eu ofertar fezes haverá uma demanda automática para isso?”. Mas não é bem assim. Portanto, para satisfazer a curiosidade desse aluno, resolvi fazer um resumo sobre o tema (que tem como base o texto de Mark Blaug do seu livro de HPE, cuja data de publicação me foge à memória).
A Lei: Micro VS Macro
A Lei de Say parte do princípio de que, numa economia mercantil (ou capitalista), com grande divisão social do trabalho, praticamente a única forma disponível para se obter bens e serviços é a produção de outros bens e serviços equivalentes que serão dados em troca. Destarte, a produção aumenta a oferta de bens, mas, como ninguém oferta algo sem querer demandar outra coisa em troca, e também, como é necessário pagar os fatores de produção, a oferta gera a renda necessária à própria procura desses bens.
É um raciocínio simples, basicamente a idéia de que “produtos são pagos com produtos”. Contudo, apesar de simples, é um princípio sólido para a macroeconomia. Como diz Blaug ele “alerta-nos para não aplicarmos a variáveis macro afirmações derivadas de uma análise micro”. E, apesar da simplicidade do raciocínio, não se engane: há controvérsias sobre o assunto até os dias de hoje.
Sob uma ótica micro, vejamos o que define a curva de procura de uma indústria em particular. Ela é derivada da renda gerada por todas as outras indústrias e, quiçá, uma pequena parte por sua própria indústria (pode ser, por exemplo, que os funcionários de uma indústria de calçados consumam uma parte de seus próprios produtos). Logo, sua curva de demanda pode até depender da sua oferta, mas depende primordialmente dos pagamentos aos fatores de produção realizados pelas outras indústrias. Ou seja, depende da oferta das outras indústrias. Assim, é bem possível que haja um momento em que a oferta de bens da indústria em questão seja maior ou menor do que a demanda pelos seus bens. É logicamente possível uma sobreprodução de bens e serviços em um setor específico.
Mas isso vale para a economia como um todo? Não. Sob uma ótica macro, a demanda agregada e a oferta agregada não são independentes. De fato, uma define a outra. Senão vejamos:
O que seria a oferta agregada? A soma dos preços de todos os bens e serviços ofertados em troca de outros bens e serviços de preço equivalente.
E o que seria a demanda agregada? A soma dos preços de todos os bens e serviços demandados em troca de outros bens e serviços de preço equivalente.
A oferta e a demanda são faces de uma mesma moeda: a troca.
Algebricamente
∑pO ≡ ∑pD
(o somatório dos preços dos bens e serviços ofertados é idêntico ao somatório dos preços dos bens e serviços demandados)
Vê-se que, nesse caso, há uma impossibilidade lógica de sobreprodução, afinal, oferta e demanda são idênticas! Deste modo, ao se tratar de um excesso geral de produção, deve-se falar de um excesso de bens e serviços em relação a alguma outra coisa, visto que, em relação a eles mesmos, é algo logicamente impossível. É aí que está o cerne da questão.
Identidade de Say VS Igualdade de Say
Ao afirmarmos a identidade ∑pO ≡ ∑pD, vimos que é logicamente impossível ter uma sobreprodução geral de bens e serviços, mas estamos considerando que a moeda, um produto crucial dentro do sistema capitalista atual, é igual a todos os outros bens e serviços úteis: ninguém desejaria entesourá-la só por entesourar, i.e., ofertar bens para demandar dinheiro e não demandar outros bens, em contrapartida, com aquele dinheiro obtido. Assim, na identidade acima, que Mark Blaug chama de “Identidade de Say”, pressupomos uma economia de trocas em que a moeda (ou outros ativos quase-moeda) funciona apenas como unidade de conta e meio de troca, mas não como reserva de valor.
Entretanto, numa economia real, a moeda não tem só essas propriedades. Ela é também reserva de valor (e, além disso, como ressalta Keynes, é um ativo com outras características peculiares que não serão tratadas aqui). Logo, aplicando a Lei de Say ao mundo real, há a possibilidade lógica de sobreprodução de mercadorias, pois existe a possibilidade de uma demanda excedente por moeda, algo ao qual todos os outros bens podem ser produzidos em excesso. Nesse caso, o papel da Lei de Say numa economia real seria demonstrar que, quando há a crise, há mecanismos de mercado que tendem a corrigi-la.
Definindo Dd por demanda por dinheiro e Od por oferta de dinheiro, temos agora não mais uma identidade, mas uma igualdade entre oferta e demanda:
∑pO = ∑pD, se, e somente se, Od = Dd
Nesse caso estamos incorporando à moeda também sua função como reserva de valor. Quando há excesso de bens (∑pO > ∑pD) isso significa que há uma demanda excedente por moeda (Od < Dd). E quando há uma demanda excessiva por bens (∑pO < ∑pD), isso significa que há uma oferta excessiva de moeda (Od > Dd). O primeiro caso seria, por exemplo, um excesso de preferência por liquidez, resultando em entesouramento a la Keynes, em que não há demanda efetiva de pleno emprego. O segundo caso seria, por exemplo, um aumento da base monetária causando excesso de demanda sobre a produção e resultando numa pressão altista nos preços.
Lei de Say, os Clássicos e Keynes
Mas, então, os autores clássicos afirmavam o quê? A Identidade ou a Igualdade de Say? Segundo Blaug, nenhum apregoava a Identidade de Say. Nem mesmo o próprio Jean Baptiste Say o fez! Todos reconheceram a possibilidade de crises de sobreprodução no sistema. Contudo, afirmavam a impossibilidade de crises seculares, devido aos mecanismos de ajuste próprios da economia de mercado. Em síntese, uma economia competitiva tenderia ao pleno emprego e as depressões não poderiam ser permanentes, pois as demanda ou procura excedentárias por moeda seriam autocorretoras, devido aos movimentos dos preços e juros.
Assim, qual seria a crítica de Keynes? Como, retoricamente, suas críticas foram dirigidas mais à Identidade de Say do que à Igualdade, muitas vezes se dá importância demasiada ao papel da Lei de Say na teoria clássica e neoclássica. Mas o cerne da teoria de Keynes, na realidade, não é a crítica à Identidade de Say, afinal, para tanto bastaria demonstrar que a moeda também exerce função de reserva de valor. Ou, ainda, apenas coletar dados empíricos que demonstrassem que, de fato, existem crises reais de sobreprodução.
A crítica de Keynes consistiu em demonstrar que os mecanismos automáticos de ajuste, que solucionariam uma demanda excedentária por moeda, não existem. Resumidamente, ao separar o ato de poupar do ato de investir, incluindo uma relação entre moeda, incerteza e investimento na economia, Keynes retira da taxa de juros sua qualidade de mecanismo automático que tende a levar a economia ao pleno emprego. Segundo Keynes, os juros seriam um fenômeno monetário e não "real". Seriam um prêmio pelo não entesouramento da moeda, e não pela abstenção de consumo presente.
Contudo, após a revolução keynesiana, outros autores buscaram demonstrar a incompletude de suas proposições e como os mecanismos de ajuste funcionam sim, mesmo que o juro seja, de fato, um fenômeno apenas monetário. E assim o debate da Lei de Say (aquilo que parecia simples, trivial ou ridículo) continua até hoje, ainda que travestido como algo mais complexo do que outrora!
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Bom, tentei não alongar muito a postagem, entretanto espero que não tenha sido muito resumida e tenha tido alguma utilidade para alguém. Há outras nuances acerca da lógica e da história da Lei de Say que espero tratar, posteriormente, em outras postagens.
Comentem!
Abraços.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Existe um método ótimo de investir na bolsa?
A minha 'ceticidade' aumentou recentemente ao ler este artigo (dica do Gustibus):
Análise Técnica, sorte ou realidade? do Pedro Saffi
Com as seguintes conclusões:
Após a realização dos testes, concluímos que as estratégias de análise técnica
não devem ser utilizadas para auxiliar as decisões de investimento. Não somos
capazes então de rejeitar a hipótese de eficiência de mercado, já que as estratégias
não remuneram adequadamente o investidor. Apesar de sua construção ser bastante
simples (ou por causa dela), estas estratégias são utilizadas em larga escala
por pequenos investidores no mercado financeiro brasileiro. Como mostram os
resultados acima, a performance destas estratégias é fruto do acaso e seu uso leva
o investidor médio a fracassar na tentativa de obter ganhos em relação aos da
estrategia “comprar-e-esperar”.
Tem também uma séria engraçadíssima do Tim Harford "Trust me, I'm an economist", a respeito.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Liberdade Econômica e Desenvolvimento
Como disse Milton Friedman, em sua obra "Liberdade para escolher", em um livre mercado, só existem trocas se estas forem voluntárias, e estas, por sua vez e com certo grau de obviedade (não tão óbvias para alguns economistas), acontecerão se, e somente se tais trocas forem benéficas para ambas as partes.
Desta forma, em um ambiente onde os agentes possuem liberdade para fazer aquilo que bem entenderem, é de se esperar que, na média, o bem-estar geral destes agentes seja maior do que daqueles que vivem em um ambiente onde as liberdades individuais são restringidas. A fim de correlacionar o grau de liberdade econômica de um país com o seu nível de desenvolvimento, tomamos o Index of Economic Freedom, do The Heritage Foundation, como proxy do primeiro, e o Índice de Desenvolvimento Humano, das Organização das Nações Unidas, como proxy do segundo. O resultado é o que se segue (clique na imagem para ampliar):
Sem querer prolongar muito a postagem, pode-se notar que há uma correlação positiva de 0,63 entre o Índice de Liberdade Econômica e Índice de Desenvolvimento Humano. Óbvio que este "estudo" não é conclusivo, até porque há inúmeras variáveis que explicam o desenvolvimento de uma nação, todavia, é mais um vestígio do bem que um ambiente livre pode trazer aos seus habitantes.
PS: Para maiores informações sobre os índices, acessem os sites "linkados" no post.
domingo, 8 de junho de 2008
Enquanto isso, na França...

Várias pesquisas recentes mostravam que nunca um presidente francês teve uma aprovação tão baixa após apenas um ano de mandato.
Sarkozy reagiu expondo menos a sua vida privada e tentando projetar a imagem de um presidente trabalhador, que pretende a qualquer custo realizar reformas que melhorem a vida dos franceses.
A pesquisa do Figaro mostrou que as políticas públicas contra o desemprego e a corrosão do poder de compra ganharam popularidade em maio pela primeira vez neste ano, o que pode explicar a melhoria na aprovação do presidente.
sábado, 7 de junho de 2008
Mais Argentina...
A presidenta e sua equipe têm se mostrado cada vez mais incapazes de lidar com os problemas da economia argentina. Segue, nesse ano, mais outra paralisação causada pelo aumento de impostos de exportação (notícia abaixo), e o povo argentino sofre com perda de emprego e desperdício de alimentos. Retirado da Reuters Brasil
O prolongado protesto dos agricultores contra o imposto já prejudicou vários setores da economia, incluindo os transportadores que bloqueiam as estradas do interior do país.
Em março, uma paralisação de três semanas resultou em desabastecimento de alguns produtos básicos nas grandes cidades.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Erros de Jornal!

[ ∑P1*Q0 / ∑P0*Q0 – 1 ] * 100 = I
Em que P0 refere-se aos preços das mercadorias do seu orçamento na primeira amostragem, P1 refere-se aos preços na segunda amostragem e Q0 refere-se à quantidade apurada consumida no orçamento feito na primeira amostragem.
Até aí tudo bem... até que a reportagem resolve dar um exemplo numérico! Segue o exemplo:
“Pedro compra todos os meses duas camisas e uma sandália. No primeiro mês a camisa valia R$50,00 e a sandália R$30,00. Após 30 dias a mesma camisa passou a valer R$60,00 e a sandália R$40,00. Qual a inflação de Pedro neste mês?”
[((60+40)*3) / ((50+30)*3) – 1] * 100
Logo, [(100*3 / 80*3) -1] * 100 = inflação de 25%!
Ao invés de fazer o somatório de ∑(P1xQ0) ou seja, dos preços vezes as quantidades, a reportagem fez o somatório dos preços e depois multiplicou o resultado pelas quantidades – o que é absurdo, pois se a fórmula fosse assim, você simplesmente dividiria Q0 por Q0 e restaria apenas a divisão da somatória dos preços novos pelos antigos, sendo a quantidade irrelevante:
Veja:
[ ∑P1*Q0 / ∑P0*Q0 – 1 ] * 100 = I
[ ∑P1/ ∑P0 – 1 ] * 100 = I
O cálculo correto, fazendo ∑(P1*Q0) ao invés de (∑P1)*Q0, resultaria numa inflação de 23,08%.
Tudo bem, alguém pode argumentar – “mas o valor é bem próximo!”. Próximo nada, mude o exemplo para 10 camisas e 1 sandália para ver a discrepância. O primeiro cálculo resultaria novamente em 25% de inflação (afinal, as quantidades, uma dividida pela outra, irão se anular - a inflação seria a mesma independentemente do seu orçamento!) enquanto que o segundo cálculo resultaria numa inflação de 20,76%!
Não sei como deixaram passar esse absurdo no jornal! Confiram pessoalmente quando houver tempo!
PS.: aproveitando o ensejo, outro erro crasso de jornal no dia de hoje, mas agora na Tribuna, foi referir-se ao filme “Homem de Ferro” por “O homem da máscara de ferro!”! Vide página 06 do caderno AT2, que afirma o seguinte: "Robert Downey Jr. cria uma armadura que lhe dá superpoderes em "O Homem da Máscara de Ferro" [sic]!
Assim Funciona o Governo
Pois bem, o deputado, que é da base do governo, ao invés de fazer umas ligações e receber os dados por email, um processo informal, resolveu no exercício de suas funções constitucionais fazer o pedido formalmente.
Pois bem, ele protocolou o pedido a mesa diretora que o encaminhou ao governador que encaminhou ao secretário que passou pro sub-secretário, que levou ao chefe de um setor, que repassou ao sub-chefe do mesmo setor, que respondeu parcialmente a questão, devolvendo ao seu chefe, que reencaminhou ao sub-secretário que encaminhou a outro setor (o meu no caso) que vai responder a ao pedido de informações, encaminhá-lo ao sub-secretário, que encaminhará ao secretário --> governador --> mesa da assembléia --> deputado. E assim, se tudo der certo, o tal deputado terá seu pedido de informações atendido em um pouco mais de três meses e justificado a existência de uma série de funcionários públicos.
Vale a ressalva que esse ciclo e essa demora não são nenhum problema específico do ES, mas sim de um problema específico da burocracia governamental.
domingo, 1 de junho de 2008
Notícias!

Notícias do BLOG!
Bom, primeiramente, o resultado da enquete anterior, sobre o melhor professor do curso, foi o seguinte:
1. Jorge 24%
2. Vinicius 22%
3. Ana 13%
Agora temos mais duas novas enquetes no Blog! A primeira refere-se à calourada: No final desse mês, no Ilhacústico, o Alcoolnomia acontecerá junto com o show da banda Ponto de Equilíbrio. Aos alunos de economia será reservada uma área VIP com bebida LIBERADA! Quem estiver interessado em ir, para mais informações, pergunte aos membros da diretoria do C.A.
A outra enquete refere-se ao ENECO. Neste ano, o encontro será na cidade de Ilhéus, na Bahia, durante os dias 20 a 25 de Julho. Para mais detalhes, acesse o site abaixo:
Quanto ao ônibus, o C.A. está vendo a possibilidade de conseguir patrocínio.
Novos Vídeos da Semana: ao lado novos vídeos interessantes; entrevistas do Lula e do FHC no programa Hard Talk da BBC. Não deixem de assistir. Quem tiver sugestões para novos vídeos para semana que vem, mande um e-mail ou deixe um recado nessa postagem.
That's all folks.
Lembrem-se, quem tiver alguma notícia, informação ou qualquer outra coisa de interesse econômico, favor postar no Blog!
Abraços!
