
Para Menger, a moeda é uma instituição que emergiu, involuntariamente, da comunicação e interação dos agentes individuais.
Sua análise parte de uma economia de escambo. Como sabemos, a maior dificuldade desse tipo de interação econômica é a dupla coincidência de necessidades. Logo, como meio de evitar esse problema, os negociantes buscam uma mercadoria conveniente, que seja freqüentemente trocada, para ser utilizada em suas transações. Esse costume torna-se relevante e a partir daí toma lugar um processo circular de auto-reforço de natureza institucional. A escolha e aceitação de uma mercadoria dá incentivos para que outros também passem a utilizá-la como moeda; e a cada vez que isso acontece, reforça-se sua escolha. E é este processo de realimentação circular positiva que leva à emergência da referida instituição.
Esse tipo de análise feita por Menger, que parte de indivíduos dados para a instituição emergente, inspirou um projeto teórico, comum à economia austríaca e à neo-institucionalista, que busca demonstrar a emergência espontânea de instituições a partir de interações individuais. Um outro exemplo bem ilustrativo de instituição que surge dessa maneira é a língua, que se mantém sem nenhuma interferência ou planejamento estatal.
Partindo desses exemplos, Hodgson, em seu artigo "A evolução das instituições: uma agenda para pesquisa teórica futura", levanta - dentre outros - alguns questionamentos que ainda carecem de pesquisa no que tange à emergência e evolução das instituições - que instituições (ou que tipo de instituições) surgem de forma espontânea? E quais instituições precisam do auxílio de outras instituições mais poderosas e preexistentes para serem criadas e/ou sustentadas?
Voltando a Menger. Em discussões posteriores, o autor levantou a questão sobre uma potencial variação da qualidade da moeda. Nem todos, por exemplo, são capazes de reconhecer a qualidade e quantidade do ouro nela presente. Esse problema poderia subverter a evolução da instituição monetária. Tanto que, em seu artigo "Gold", Menger reconheceu que isso poderia ser tão sério que o Estado teria que desempenhar um papel. Em suas palavras: "Só o estado tem o poder de proteger efetivamente as moedas e outros meios de troca que circulam contra a emissão de falsas moedas, reduções ilegais de peso e outras violações que obstruem o comércio". Contudo, apesar de conceder ao estado o papel de manter a integridade da moeda em economias desenvolvidas, em sua visão, ainda trata-se de uma instituição essencialmente independente do estado.
Por outro lado, Hodgson apõe um ponto de vista diverso. Segundo o autor, "enquanto Menger estava certo em enfatizar que muitas instituições sociais emergem e se desenvolvem sem um plano consciente, dá-se freqüentemente o caso de que uma instituição alcança um estágio importante de desenvolvimento quando ela é conscientemente reconhecida e legitimada por outras instituições". A moeda por si só pode ter propriedades auto-reguladoras e espontâneas, mas é também endossada por outra instituição poderosa. Apesar do fato de o Estado decretar um padrão monetário não ser suficiente para a emergência da instituição da moeda, seu poder simbólico, cerimonial e legitimador são considerados elementos necessários para o pleno desenvolvimento de uma economia monetária, sendo, portanto, parte da essência da moeda, e não "meros aspectos históricos e acidentais".
Segundo Hodgson, a diferença crucial para que instituições possam emergir ou não de forma espontânea está na presença ou ausência de mecanismos intrínsecos de correção de erros ou de autopoliciamento. Na língua, há grandes incentivos para que o indivíduo conforme-se a ela, se autopolicie e corrija seus erros, mesmo que a linguagem mude com o passar do tempo. Já com a moeda, o autor afirma que essas características não são tão presentes, e como exemplo cita a Lei de Gresham. Daí a necessidade de uma instituição maior para legitimá-la.
Outras instituições como a propriedade privada e os contratos podem ser postas sob o mesmo foco de análise. Enquanto autores da Nova Economia Institucional admitem a possibilidade da existência de ambas sem a presença do Estado, outros institucionalistas advogam que este melhora resultados sub-ótimos, tendo um papel na emergência e manutenção de instituições que carecem de mecanismos adequados de autopoliciamento.
Contudo, o autor não deixa de fazer a ressalva: "Se além do Estado, outra instituição forte poderia cumprir este papel necessário, é uma questão aberta".

