sábado, 27 de setembro de 2008

Democratas, Republicanos e Subprime

Passado o entusiasmo que Barack Obama é capaz de causar em qualquer um, dada sua oratória fantástica, alguns de seus recentes discursos estão causando incômodo a quem tem observado os desenlaces da crise financeira americana.

Esquecer a história e recontá-la a sua maneira sempre fez parte da política e até da ciência, por isso é preciso tomar cuidado com algumas observações acerca da crise. A insistência em culpar o partido republicano e a falta de regulação pela bagunça que vigora no sistema financeiro está cada vez mais patente no discurso de Obama. Mas isso pode acabar saindo como um tiro no próprio pé.

O "financiamento" estatal das empresas em questão, bem como sua desregulamentação, foram promovidos pelos democratas visando a um objetivo "social" - o aumento dos fundos para aquisição da casa própria por parte da população de baixa renda.

Não obstante, a população americana parece ser, diferentemente de outros países, um pouquinho menos suscetível à manipulação por meio de discursos populistas.

Segue abaixo a análise republicana da crise, na voz de Mankiw, conselheiro econômico da adminstração Bush.

Quem tiver tempo leia os originais em inglês.

Distorcendo a História
Por Greg Mankiw
Tradução: Carlos Cinelli

No debate de ontem à noite, Barack Obama faz uma boa pergunta sobre a presente crise financeira, mas dá uma resposta, no mínimo, incompleta:

“A pergunta, eu acho, que devemos fazer a nós mesmos, é como fomos parar nessa situação? Há dois anos, eu avisei que, por causa da bagunça dos empréstimos subprime, por causa da regulação frouxa, teríamos potencialmente um problema, e eu tentei parar com algum dos abusos das hipotecas que estavam acontecendo à época... nós também temos que nos perguntar: como foi que destruímos tantas regulações? Nós não construímos um quadro regulatório do século XXI para lidar com esses problemas. E isso tem a ver com a filosofia econômica que diz que regulação é sempre ruim.”


A partir do discurso de Obama, somos levados a acreditar que o principal problema foi uma filosofia republicana de “livre capitalismo” que levou a uma regulação estatal insuficiente no sistema financeiro.

O senador Obama talvez queira ler esse artigo do NY Times de 1999!

“Num movimento que pode ajudar a aumentar o número de casas próprias entre as minorias e as pessoas de baixa renda, a Corporação Fannie Mae está afrouxando os requisitos necessários para a compra de empréstimos de bancos e outros emprestadores... Fannie Mae, a maior subscritora de hipotecas da nação, tem sido posta sob pressão no governo Clinton para expandir as hipotecas entre as pessoas de baixa renda.”

Eu não estou sugerindo que o problema de toda a crise deva ser colocado no colo do time de Clinton. Há muita culpa a se botar em várias pessoas. De certo, o problema vai até, pelo menos, a administração de Johnson, que ajudou a erguer um sistema de financiamento imobiliário fundamentalmente problemático.

Se o senador Obama realmente quer transcender a política partidária, como às vezes nos faz crer, talvez ele queira nos dar uma visão ligeiramente mais balanceada da história de como isso tudo começou. Ele também deveria notar que a administração Bush avisou sobre esses problemas há cinco anos, e que teve suas tentativas de reforma embargadas por destacados políticos do partido de Barack Obama.

O que deu errado na crise?

Diagnóstico de Larry:

“O que deu errado? A ilusão de que as companhias estavam fazendo um trabalho virtuoso tornou impossível construir uma agenda política para criar uma séria regulação. Quando havia falhas sociais as companhias sempre culpavam a necessidade de obter resultados para os acionistas. Quando havia falhas de negócios as empresas sempre diziam ser resultado de suas obrigações sociais. O questionamento da disciplina no orçamento do governo não era válido porque as empresas eram “privadas”. Contudo, a disciplina de mercado era inexistente porque havia uma percepção generalizada – e agora validada – de que suas dívidas eram asseguradas pelo governo. Não é de se espantar que, com ganhos privatizados e perdas socializadas, as empresas apostaram como num cassino até chegarem à catástrofe financeira.”


Mantendo Fannie Mae e Freddie Mac em ordem

(Artigo do Greg Mankiw no Financial Times, sobre as empresas do financiamento imobiliário americano, em 24 de fevereiro de 2004)


O congresso americano caminha na direção de aumentar a supervisão do mercado de hipotecas americano. Alan Greenspan, presidente do FED, está convocado hoje para testemunhar ante o comitê bancário do senado sobre a regulação de Fannie Mae, Freddie Mac, e o Sistema Federal de Empréstimo Bancário Imobiliário, os Empreendimentos Patrocinados pelo Governo (EPG) que sustentam o mercado. Audições adicionais serão feitas amanhã.

O problema dos EPG vai bem mais além do que o papel da habitação na economia. Ele tem alcançado implicações para todo o sistema financeiro americano.

Os EPG foram criados há uma década para assegurar uma oferta adequada de fundos para hipotecas. Embora criado para fins públicos, tratam-se de empresas privadas. Fannie e Freddie são propriedade de seus acionistas, e os Bancos Federais de Empréstimo Imobiliários são propriedade de seus membros, em sua maioria, instituições financeiras. Desde sua criação, suas atividades têm expandido enormemente.

Por lei, os EPG de habitação gozam de privilégios como isenção de impostos e de registro na SEC (CVM americana), bem como alguns requerimentos de divulgação de resultados. O Tesouro Americano tem a autorização de estender o crédito a eles e alguns de seus diretores são indicados pelo Presidente. O benefício monetário direto desses privilégios é modesto, contudo, seu valor simbólico é muito significante.

Os privilégios alimentam uma crença no mercado de que as dívidas dos EPG são garantidas pelo governo americano. Dada essa percepção, investidores estão dispostos a aceitar um menor rendimento das dívidas dos EPG’s do que de outras companhias privadas. Um estudo recente do FED estimou que as taxas de juros sobre a dívida de Fanni e Freddie ficaram 40 pontos- base abaixo de ativos comparáveis. No mercado financeiro, tal vantagem, provinda desse subsídio de financiamento, é enorme!

A maioria dos analistas acredita que os EPG’s passam alguns de seus subsídios implícitos para a população de baixa renda, através de menores taxas de juros hipotecárias. Todavia, o estudo estima que o subsídio reduza as taxas hipotecárias por 7 pontos-base, sendo todo o resto embolsado pelos executivos e acionistas.

Essa situação levanta o problema da justiça de tal ato, pois o subsídio deixa outras instituições financeiras em desvantagem. MAS O PRINCIPAL PROBLEMA É QUE ESSE SUBSÍDIO DO GOVERNO GERA UMA FONTE DE RISCO SITÊMICO PARA O SISTEMA FINANCEIRO AMERICANO. Desde 1996, a dívida gerada para as EPG’s de habitação mais que triplicaram. (...)

Porque as EPG’s de habitação são muito grandes, o risco que eles enfrentam são importantes para todo o sistema financeiro. A dívida dos EPG é dividida por várias outras instituições. Até um pequeno erro de gerenciamento de risco dos EPG’s poderia causar efeitos danosos em toda a economia.

Embora não exista meio de eliminar todo o risco, é possível reduzi-lo assegurando que essas companhias estejam sob a supervisão de um órgão regulador. Este órgão deveria ter a autoridade de impor padrões de risco e de capital mínimo para os EPG’s; de revisar e negar novas atividades dos EPG’s (...)”

Proposta da Administração Bush para regulação do sistema financeiro
11 de setembro de 2003

“A administração de Bush recomendou hoje a mais significativa revisão geral na regulação do financiamento imobiliário desde a crise de poupança e empréstimo de uma década atrás. (...) uma nova agência seria criada dentro do Departamento do Tesouro para supervisionar Fannie Mae e Freddie Mac, as companhias patrocinadas pelo governo que são as maiores do mercado de hipotecas”

9 comentários:

  1. E ainda culpam o tal "neoliberalismo" pela crise.

    Leiam a respeito do Community Reinvestment Act, que é dito pelo Mankiw.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Community_Reinvestment_Act


    Palavras do Bernanke em março de 2007:

    Securitization of affordable housing loans expanded, as did the secondary market for those loans, in part reflecting a 1992 law that required the government-sponsored enterprises, Fannie Mae and Freddie Mac, to devote a percentage of their activities to meeting affordable housing goals (HUD, 2006). A generally strong economy and lower interest rates also helped improved access to credit by lower-income households.

    http://www.federalreserve.gov/newsevents/speech/Bernanke20070330a.htm


    Mas não adianta, sempre existirão os bodes expiatórios, nesse caso, os especuladores de Wall Street.

    ResponderExcluir
  2. aew jere, naum sei da onde vc tira tempo e saco pra traduzir isso... mas ainda bem que vc faz!

    flwzzz

    ResponderExcluir
  3. Só pra constar: a tradução é livre mesmo, fiz sem revisar ou consultar outras fontes.

    Government-Sponsored Enterprises, por exemplo, eu traduzi como "Empreendimentos Patrocinados pelo Governo", não sei até que ponto é uma boa tradução.

    Qualquer correção é só dar um toque que se muda.

    *Anônimo: não me custa nada! valeu, abs!

    ResponderExcluir
  4. Hoje eles vão votar de novo o projeto para comprar os títulos podres!

    Vamos ver o que que sai.

    ResponderExcluir
  5. Vale a pena ler os últimos três artigos do blog do becker.

    http://www.becker-posner-blog.com/

    ResponderExcluir
  6. Rapazzz, os caras tiveram a cara dura de negar o pacote!!!! Fudeu tudo agora!

    ResponderExcluir
  7. Acho que esse pacote não vai ajudar em nada. Melhor estaríamos sem ele... essa injeção de dinheiro só vai piorar o caos.

    ResponderExcluir
  8. Acho que esse pacote não vai ajudar em nada. Melhor estaríamos sem ele... essa injeção de dinheiro só vai piorar o caos.

    ResponderExcluir

Participe!