segunda-feira, 9 de maio de 2011

Guerras cambiais e a impossível Trindade

Tentar conter a valorização do Real pode provocar mais pressões inflacionárias, este é o recado do Paul Krugman. Não é à toa que o governo já jogou a toalha na batalha para conter a valorização do Real diante do dólar, pois está mais preocupada agora com a inflação e possibilidade de isto facilitar a vida da oposição ao governo Dilma.


Aliás, o governo não só afrouxou a política de contenção à valorização ao Real como também disse que o principal instrumento de combate à inflação é a taxa de juros.


Abaixo o artigo do Paul Krugman comentando que um país deve escolher entre controlar o câmbio, ter uma política cambial independente ou livre movimentação de capitais. No caso do Brasil, estamos tentando controlar o câmbio, ter uma política monetária independente e livre movimentação de capitais. Estamos vendo que isto não funciona...

Rogoff e a crise da macroeconomia



Mas apesar dele dizer que há a necessidade de se ter uma nova forma de pensar a macroeconomia, isto não quer dizer que se deva fazer política econômica de qualquer jeito, basta ver o último parágrafo em que ele comenta sobre o Brasil.
Mas esta entrevista deve ser vista com cuidado, pois é apenas uma visão. Hoje é mais forte a visão de que a crise atual não foi  uma falha da teoria econômica convencional, e sim falhas de política e regulação econômica. E hoje dá muito espaço na mídia atacar a ortodoxia...



"Inflação de serviços é inflação de demanda"

Em matéria divulgada hoje no Estadão, comenta-se que o perfil da inflação está mudando no Brasil e que a alta de preços sentida no varejo vem do setor de serviços e não da alta do preço dos alimentos.

A matéria pode ser lida aqui.


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sábado, 7 de maio de 2011

Ah! O amor! O que é e para quê serve?

Para a tarde de sábado ou outro dia qualquer de melancolia, arroubos ou efusões...


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Qual é o preço que a sociedade paga por um carregador de papel?

Quando há um entrada de dólares no Brasil, o que temos é uma oferta de dólares na economia. Se esta oferta for maior que a demanda por dólar, dada a lei da oferta e demanda, teremos uma valorização do Real diante do dólar.

Para conter a valorização do Real o Banco Central atua comprando uma parte do excesso de oferta de dólares no mercado. Mas o Banco Central não consegue fazer esta intervenção numa magnitude que permitisse conter esta valorização do Real. E entender o funcionamento e os limites desta política de intervenção é algo extremamente importante.

Vamos esquematizar:

1 - o Banco Central compra dólares dos ofertantes (exportadores\investidores estrangeiros\captações no exterior)

2 - esta compra é feita via emissão de moeda

3 - a emissão de moeda reduz os juros e também eleva a demanda, e isto pressiona a inflação

4 - para manter tanto a inflação quanto a selic na meta, o Banco Central retira o excesso de moeda através da venda de títulos do Governo que estão na carteira do Banco Central

5 - agentes econômicos entregam reais ao Banco Central em troca de títulos públicos

6 - após a troca de moeda por títulos públicos, o Banco Central retira do mercado o excesso de moeda que ele emitiu para comprar dólares. Isto estabiliza os juros e a inflação.

Esta sequência é chamada de intervenção esterilizada, pois o Banco Central atua para anular ou esterilizar os efeitos da oferta de moeda utilizada para comprar dólares. Esta esterilização é importante para conter a inflação.

E temos de lembrar que temos uma meta tanto para a inflação quanto para a Selic.

A questão relevante é entendermos por que o Banco Central não consegue fazer uma intervenção ou compra de dólares maior que permitisse conter ou diminuir a valorização do Real.

Primeiro, se para comprar dólares ele emite reais e para retirar o excesso de reais emitidos o Bacen vende títulos na sua carteira, temos aqui um primeiro limite, que é o volume de compras de títulos públicos pelo mercado.

Se houvesse um volume de compra maior do títulos públicos, o volume da intervenção do Bacen poderia ser maior. E quem poderiam ser estes compradores? O principal comprador poderia ser próprio governo.

Hoje o Governo apresente déficit nominal, ou seja, o que ele arrecada não é suficiente para pagar todas as despesas, incluindo juros da dívida. Na rolagem da dívida o Governo é um demandante de recursos no mercado, ou seja, ele também vende títulos públicos. Podemos dizer que ele concorre com o Bacen na captação de reais no mercado.

A rolagem da dívida é um fator de pressão dos juros também, pois é uma demanda por recursos na economia e isto eleva juros. Se houvesse uma maior poupança na economia teríamos espaço para reduzir os juros e também alívio na valorização do Real. E principal fonte de poupança poderia ser a própria redução do gasto do Governo.

A criação de um maior superavit do Governo significaria que ele demandaria menos bens e serviços, o que ajudaria no controle da inflação, e que ele também demandaria menos recursos, o que pressionaria menos os juros. E com uma poupança maior na economia, o câmbio real poderia se desvalorizar.

E também reduz o próprio custo fiscal das reservas internacionais. Pois elas estão aplicadas em ativos com juros baixos, mas o seu custo de captação é dado pela Selic.

Caso o Governo fizesse um superavit primário maior, esta economia permitiria a ele comprar títulos da sua dívida que estão no mercado. Se o Governo não está demandando recursos, os juros tendem a cair e também o interesse em manter títulos do Governo na carteira dos agentes privados.

Esta compra de títulos feitas pelo próprio Governo para reduzir a sua dívida permite que o Bacen possa intervir num volume maior no mercado cambial. Mas o próprio efeito da redução do gasto público sobre a poupança interna, juros e inflação já atenua bastante o efeito da valorização do Real.

E quando há a emissão de moeda, isto cria expansão na demanda. Maior demanda eleva juros e inflação. E quando o Bacen retira a moeda emitida da economia, isto também eleva juros. Temos duas forças atuando sobre a taxa de juros neste momento. Primeiro a expansão da demanda causada pela oferta de moeda, e segundo, a própria retirada deste excesso de moeda. O resultado é que o Bacen não consegue, devido à elevação da taxa de juros, retirar toda a moeda ofertada.

O efeito real disto é expansão da demanda e pressão sobre a inflação. Este é outro limite.

Há uma confusão enorme quando se diz em redução dos gastos públicos. Reduzir gastos não significa cortar gastos sociais ou reduzir investimentos. Mas rever políticas de gasto do Governo que permitam à economia ter uma trajetória mais estável.

Associado a um maior gasto público há um custos e benefícios. E a sociedade deve avaliar e debater isto.

Os gastos públicos são apresentados apenas como tendo efeitos benéficos e sem custo nenhum. Mas há custos envolvidos. Cada um centavo a mais gasto  pelo governo é um centavo a menos à disposição para mim ou para você. A cada um milímetro que o Estado avança, sobra menos espaço para mim ou para você. E como cada vez mais sobra menos espaço para a iniciativa privada, todos acabam querendo ir para os braços de quem está mais confortável.

E aí todos querem concurso público, contratos e parcerias com o Estado, indicações para cargos comissionados. Bolsas, pensões e benefícios.

Mas e o custo disto? Não só em termos de impostos, mas de talentos e oportunidades perdidas? Cada vez que uma pessoa capaz vai para um cargo público para ser apenas um assessor administrativo, a sociedade perde uma pessoa capaz de criar novas oportunidades de negócios e empreendimentos.

Mas esta questão é sempre vista pela lógica invertida: vou para o Estado pois não encontro boas oportunidades no mercado. Mas não se percebe que é próprio crescimento do Estado quem limita estas oportunidades. É o crescimento do Estado que limita a iniciativa privada. E isto faz sobrar menos oportunidades.

E iniciativa privada não é a mesma coisa que o grande capital, mas é a condição que eu, você ou qualquer outro possamos nos lançar diante de qualquer oportunidade e aceitar o risco necessário para obtermos algum retorno e sucesso.

Quando o Estado cresce, cresce junto o custo em termos de despesas (juros, inflação e câmbio até), e a economia também perde em eficiência e produtividade. Pois os melhores, bem, os melhores vão carregar papel no setor público.

A pergunta relevante é sempre quais são os custos e os benefícios? Quem ganha e quem perde? Viver na aparência é achar que não há custos e que todos ganham. Pois há quem ganhe  menos ou perca mais...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A inflação como um imposto

Na economia, o governo tem o monopólio de emitir dinheiro. E isto é bom para o Governo pois ele pode ter receita com isto de duas formas. Uma se chama senhoriagem, e se deve ao próprio valor do dinheiro. Uma ilustração exagerada é pensar que se o Governo tem um custo de 1 real para fazer uma nota de 10 reais, a receita que ele tem emitindo dinheiro é de 9 reais. Bom né?

A outra forma é através da inflação, pois ela causa perda no poder de compra do dinheiro. Com os preços subindo, o dinheiro compra cada vez menos. Mas como o Governo pode emitir dinheiro, ele é o primeiro a poder fazer compras com o dinheiro que ele mesmo emite.

Por exemplo, se hoje 10 reais podem comprar 10 laranjas e amanhã, por causa de uma inflação de 10%, 10 reais podem comprar só 9 laranjas, o Governo emite 10 reais hoje e compra as 10 laranjas primeiro que você. E os 10 reais que ele emitiu só chegam na sua mão amanhã, e você poderá comprar só 9 laranjas.

Ou seja, a inflação é uma forma de imposto, pois há uma perda de renda em favor do governo.

Pensando em termo de teoria da conspiração, agora você entende porque o Governo não deixa ninguém emitir dinheiro. Só ele pode...

Mas vamos ver como isto funciona.

Seja M o total de dinheiro na economia, P o nível de preços e dM a variação na quantidade de dinheiro, podemos definir a senhoriagem s como:

s=dM/P

dividindo e multiplicando por M

s=(dM/P)(M/M)=(dM/M)(M/P)

M/P é importante pois se trata do poder de compra real da moeda, descontando a inflação. É aquilo que você pode comprar efetivamente com a moeda. E chamando dM/M por h, que é variação efetiva na quantidade de dinheiro, e M/P por m, temos a receita de senhoriagem:

s=h*m

Chamando a inflação de i, a receita do imposto inflacionário t é igual ao produto da inflação pelo poder de compra real do dinheiro (exemplo das laranjas):

t=i*m

Aí com uma nova manipulação temos que:

s=h*m + i*m -i*m

colocando em m evidência, temos que

s= m(h - i) + i*m

Qual é a conclusão? Aquilo que você perde com a inflação é o ganho do governo. E se toda a expansão do dinheiro criar inflação, h=i, a receita de senhoriagem será igual ao imposto inflacionário.

Então devemos tomar cuidado com a inflação, pois a sua perda é o ganho de alguém. E no caso da inflação, é um ganho sem esforço. Então quem se beneficia não tem muito estímulo a parar de arrecadar com ela...

domingo, 1 de maio de 2011

A teoria quantitativa e o debate sobre moeda e inflação


Segundo a equação da teoria quantitaviva da moeda, temos que M*V=P*Q, onde M é a oferta de moeda, V é a velocidade de circulação da moeda, P é o nível de preços e Q é a quantidade do produto.
Com base nesta equação, e supondo V constante, com um aumento na oferta de moeda, o nível de preços deve se elevar para manter a igualdade.
Ou seja, uma variação de M afeta P diretamente. Mas isto só vale se supormos V constante. Mas uma oferta maior de moeda afeta também a taxa de juros. E se as taxas de juros caem, a velocidade da moeda também cai, pois as pessoas não irão perder rendimento se não deixarem o seu dinheiro nos bancos. O custo de reter moeda fica menor.
E um aumento de M, implica numa queda de V, pela redução da taxa de juros, o efeito de M sobre P não é tão direto.
Ou seja, podemos ter um aumento na oferta de moeda sem que isto implique necessariamente em inflação (mesmo que o aumento da emissão de moeda não seja a política mais adequada).
Vejam o gráfico com dados dos EUA:



E num post do Krugman recente sobre a questão envolvendo a oferta de moeda e inflação, lá ele comenta sobre o que seria o conceito de dinheiro e os agregados monetários a serem utilizados hoje para entender a dinâmica da relação entre inflação e moeda.
E ele posta um gráfico para mostrar que a teoria quantitativa da moeda teria dificuldade para explicar o que ocorre hoje nos EUA, já que a enorme oferta de moeda não está implicando em inflação elevada.
Aqui no Brasil um debate sobre isto ocorreu em alguns blogs importantes de economia. O Adolfo Sachsida fez dois comentários sobre a questão (aqui e aqui). Onde ele afirma sobre o caráter monetário da inflação  e questiona a visão apresentada pelo Krugman.
No blog Mão Visivel houve um post comentando sobre a teoria quantitativa da moeda e um artigo recente do Thomas Sargent e Paolo Surico, onde é mostrado que a teoria quantitativa teve validade por um curto período de tempo, ou seja, não vale como uma teoria geral.
Vale a pena conferir o debate.