domingo, 30 de agosto de 2009

Pluralidade, heterodoxia, stalinismo e nazismo

* por joaobollinger@gmail.com

O curso de economia da UFES, enquanto curso de formação profissional, está falido, isto é um fato.

Em nome da formação plural, acabamos não vendo nada. É tanto pluralismo, que fica dissipado no ar.

E aí fica algo totalmente diluído. Nossa formação fica diluída, sem base e direção.

A brincadeira começa assim: você entra calouro no curso, todo animado, achando que agora vai saber porque o Banco Central não baixa os juros, mesmo com todo mundo pedindo, e um outro monte de coisinhas.

Aí vem uns caras, ditos professores, e dizem que a culpa é do capitalismo. E estes professores se apresentam bem, e você até acredita neles. Parece consistente.

E também vai ouvir que estes “economistas neoliberais” que não baixam os juros e que criaram a crise e o neoliberalismo, são todos “ortodoxos”, seguidores fundamentalistas dos “modelos matemáticos e econométricos”.

Está lançada a maldição. Você começa a ver a micro neoclássica, e eles dizem que ela não é realista. Mas você tem de estudar, porque senão o curso de Organização Industrial não tem sentido, porque lá eles vão destruir a curva de oferta e demanda. Matar o Marshall.

Ou seja, você não aprende micro neoclássica, porque psicologicamente, você escuta desde o primeiro dia que ela não tem validade para nada. Mas ela não é a única sacrificada no altar do pluralismo. Outro maldito é o modelo IS-LM. Modelo simplista e fora da realidade, incapaz de explicar a realidade e que deturpa a obra original do Keynes. E aí também não aprendemos macroeconomia.

Bem as disciplinas de matemática, estatística ou econometria são dadas, mas mesmo que alguém faça um excelente curso destas matérias, acabam ficando perdidas. Pois não há aproveitamento nem professores orientadores dispostos a trabalhar com elas.

Ou seja, é tudo perdido. Microeconomia neoclássica não vale a pena aprender, pois é irrealista. A Macroeconomia ortodoxa é sem fundamentos, não deve ser considerada. E a matemática e a econometria não é capaz de captar ou reproduzir a realidade, então temos que desconsiderá-las.

Somos levados a desconsiderar tudo aquilo que faz de um economista um profissional do mercado.

É mais fácil enfrentar os Gladiadores na Arena do Coliseu que se arriscar na prova da ANPEC.

Isto é um crime.

Os alunos são, desde o começo do curso, psicologicamente influenciados a considerar o pensamento ortodoxo como lixo. Somos traumatizados desde calouros.

Ao fazerem isto com o pensamento ortodoxo, vemos que não há pluralismo.

O pluralismo de idéias exige que todas as formas de pensamento sejam dadas e respeitadas, e facultado o aluno o direito de escolha. Não temos este direito.

Somos roubados. Roubam nosso tempo, nossa juventude, nossa inteligência e nosso entusiasmo.

E aqui entra uma segunda questão. Dizem que querem formar uma pessoa crítica. Eu não me importo em ter uma formação crítica, mas será que eu estou tendo?

Vamos a isto então. Seria o curso de economia da UFES um centro de excelência no pensamento Heterodoxo? Referência no país inteiro, atraindo alunos e pesquisadores heterodoxos de todas as partes?

A resposta é não. Trágico.

Não há pensamento ortodoxo, não há pluralismo e nem heterodoxia de qualidade.

Criticam o neoliberalismo por ele se apresentar como o “pensamento único”, mas fazem o mesmo. Escondem sobre um suposto discurso progressista uma postura autoritária.

Para combater o “pensamento único” e totalitário do neoliberalismo eles nos apresentam o que? O “pensamento único” da heterodoxia. Não podemos ver ou ouvir nada da ortodoxia (para usar uma expressão esquecida: é stalinismo!!!)

E fazem isto de uma forma absurda. Na visão destes professores , somos todos “alienados”, contaminados pela lógica do capitalismo e incapazes de saber separar o bem do mal. Não só os alunos, mas nossas famílias também...

Somos todos burros, incapazes de escolher o próprio caminho. E eles sabem mais do que nós. É muito preconceito que estes professores sentem pelos alunos e suas famílias.

E eles querem fazer isto por nós. Escolher por nós. Mas eles não tem este direito. Isto deve ficar claro. Não podem decidir sobre nossa vida.

Quando entrei na UFES, esperava viver tudo de que ela pudesse me oferecer. Mas como vivemos no capitalismo, sei também que devo oferecer minha mão de obra para ser explorado por alguém. Mas com a formação que temos, acho que o capital não se interessa muito por nós... (e não sei se estou muito animado a lutar contra o capitalismo)

Não estamos no mundo de Matrix, onde há uma verdade escondida e um “escolhido” irá nos libertar.

Estamos num mundo real e onde alguns poucos acham que podem decidir a vida de muitos. Esta é uma postura anti-democrática.

Achar que o outro não sabe nada ou é incapaz de fazer as próprias escolhas é o pensamento que levou ao nazismo e sustentou a ditadura militar no Brasil, ironicamente combatida por alguns professores aqui.

Ou seja, vale aqui a velha piada: ditadura nos olhos dos outros é refresco...

E há um fato curioso. Marx, Keynes, Schumpeter, Kalecki, Sraffa e outros economistas sempre publicaram bastante. Artigos, livros, conferências, etc. Mas aqui cabe uma pergunta: os heterodoxos de nosso departamento publicam muito? E quando publicam conseguem ir além da SEP? Publicar na revista dos amigos é fácil...

Eu não me importaria em ter uma formação marxista ou pós keynesiana. Mas eu gostaria que ela fosse excelente. Mas isto não é possível.

E aqui entram dois argumentos sempre usados quando a discussão sobre mudanças no curso ganha força: o nível dos alunos não agüenta uma formação mais pesada e nós somos um centro periférico incapaz de atrair bons professores.

É estranho ver professores heterodoxos, tão críticos, se apoiando em argumentos tão rasteiros e que cheiram a oportunismo.

É um argumento tostines: nossos alunos não possuem um nível mais elevado: e por não terem um nível mais elevado, nossa produção não é tão boa; se nossa produção não é tão boa, nosso curso não se destaca; se nosso curso não se destaca, não atraímos bons professores e pesquisadores; se não temos bons professores não atraímos bons alunos com nível mais elevado e aí começa tudo de novo.

Keynes e Marx eram os dois bons agitadores. Conseguiram convencer muitos de suas idéias, e impactaram a história.

Os keynesianos e marxistas de nosso departamento, além de não escreverem muito, não conseguem mudar a realidade. Não são dignos de se dizerem seguidores de tão formidáveis mestres. Não conseguem mudar a realidade do departamento.

Dois fatos contra este pseudo heterodoxos: Fucape e curso de Serviço Social da UFES.

A Fucape conseguiu atrair para o ES um conjunto de professores com nível de excelência na área de negócios. (Ah! Mas lá é privado e são todos neoliberais...então dê uma olhada em alguns cursos da UFES e vejam como eles atraem recem doutores e pesquisadores permanentemente)

O curso de serviço social da UFES, seria o que podemos chamar de heterodoxo, adotam um referencial marxista. Lá a carga de leitura é maior que o nosso, os debates são melhores que o nosso e produção é melhor que a nossa. (detalhe: o departamento tb não se entende como o nosso). Mas o alunos lá são o tempo todo preparados para o espaço de trabalho. Até porque não se pode mudar o que não se sabe fazer.

Estes dois exemplos, que não são os melhores (tenho outros se precisarem), evidenciam o que o curso de economia da UFES não tem: identidade, ambiente favorável e auto estima elevada.

Um curso sem identidade não dá ao aluno segurança ou sentimento de pertencimento. E isto não permite que se crie um ambiente favorável à pesquisa, ao debate, ao conhecimento. E sem isto tudo, a auto estima vai a zero. Resultado: alunos inseguros e perdidos.

A economia ortodoxa é um fantasma que nos ronda. Não vemos, não conhecemos, não sentimos, mas somos sempre atormentados por ela. Parece o mundo Harry Potter, lá eles não podem falar ou comentar sobre o Lord Voldemort, aqui não podemos falar sobre ortodoxia. Mas ela nos pertuba.

Para finalizar, não se trata de tornar o curso da UFES ortodoxo. Trata-se de termos um curso com qualidade e objetivo, que nos dê orgulho e não vergonha.

Fica uma pergunta: a quem interessa ter um curso tão desmotivado e desorganizado? Tem alguns que se beneficiam com isto...

R.

joaobollinger@gmail.com

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

CARTA DE REPÚDIO

Um aluno, muito indignado e que prefere manter o anonimato (por medo de retaliações dos professores), me pediu que publicasse essa carta de repúdio no Blog.

Gostei da carta. Acho que é sincera e representa bem a angústia por que passam muitos alunos que ainda estão no curso (graças a Deus já me formei!). Muitos estão lá só para cumprir a carga horária e pegar seu diploma, pois não encontram nada de interesse profissional ou acadêmico. Sentem-se despreparados para o mercado de trabalho, despreparados para o ingresso nos principais centros de mestrado etc.

O curso de economia da UFES está ficando para trás. A FUCAPE, por exemplo, está aí e já conseguiu roubar da UFES alguns alunos. Pense: alguém deixar de estudar de graça para pagar para estudar é indicío de que algo está muito errado. Não é preciso ser economista para saber disso. A FUCAPE já conseguiu aprovar mestrado e doutorado em contabilidade, que é praticamente em economia (micro, matemática, estatística e finanças corporativas), e a UFES ainda carece de professores em algumas áreas para tanto. Houve, inclusive, a oportunidade para mitigar esse problema e, por conta de alguns alunos e professores, essa oportunidade foi desperdiçada... dessa maneira compartilho a frustração do nosso colega anônimo.

Leiam, divulguem, imprimam, levem para seus colegas, escrevam mais cartas de repúdio... enfim não deixem essas pessoas terminarem de enterrar o curso de economia da UFES, pelo bem de seus diplomas.

Aproveitando a oportunidade, já que é época de eleição para o centro, proponho um método muito fácil de escolher em quem votar. Leia a carta. Você saberá em quem não votar, é só ver quem e o quê essas pessoas apoiam.

Bom, sem mais delongas (pois tenho muito que estudar para a ANPEC e para o BACEN ainda!), segue abaixo a carta de repúdio!

Um grande abraço.



CARTA DE REPÚDIO

*por um aluno da graduação


Mais uma vez nós, alunos, saímos DECEPCIONADOS com o debate (ocorrido no dia 21/08/2009) sobre o futuro para o qual o nosso curso de graduação de economia da UFES se encaminha. Destino este cada vez mais distante dos principais centros do país (tanto HETERODOXOS quanto ORTODOXOS) e da educação PLURAL e de QUALIDADE a qual sonhamos e deveríamos receber.

Estamos, ao invés de progredindo, REGREDINDO, obtendo uma educação de péssima qualidade, que já chega ao ponto de ser ridicularizada pela sociedade capixaba. Quando ouvi o PROFESSOR COORDENADOR (isso COORDENADOR!) do curso dizer que eles (professores) não buscam formar alunos preparados para entrar nos principais cursos de mestrado e pós do país, nem para trabalhar em empresas, mas que queriam formar alunos com senso crítico, percebi a indignação de grande parte dos alunos, e pensei: em que mundo ele vive!? Que senso crítico ele quer dar para os alunos? Para ser crítico, são precisos INSTRUMENTOS, é preciso CONHECIMENTO, é preciso PLURALIDADE! Mas, é justamente isso que esses professores nos negam! Além do mais, eles mesmos não admitem críticas ao seu próprio pensamento!

Não entendi também por que estas coisas devem andar separadas. Não podemos ter senso crítico, com uma educação plural, que nos permita ver as várias correntes de pensamento, e nos capacite a estar preparados para ESCOLHER onde iremos trabalhar e ser útil para sociedade? Estamos sendo formados para sermos desempregados e resmungões! Mas pelo menos saberemos por que estamos desempregados (ou por que “somos desempregados” dizem eles). Digo que ESTAMOS desempregados, a meu ver (e ao da maioria), pela FALTA DE QUALIDADE do curso que está sendo ministrado nesta faculdade.

Ainda tivemos que ouvir que o abaixo assinado FEITO PELOS ALUNOS do curso não era legítimo (isso mesmo, não era legítimo!). Não sei o que poderia ser mais legítimo do que isto, do que as assembléias e demonstrações GENERALIZADAS de indignação dos alunos em relação às futuras contratações do departamento e ao futuro ao qual estamos fardados a enfrentar. Tal declaração mostrou ser uma completa FALTA DE RESPEITO em relação a estas opiniões, e somente confirmou o viés retrógrado que ALGUNS professores desejam dar ao curso (que é díspar do da maioria dos alunos): o viés de resmungões desempregados.

Minha opinião não é crítica a todos os professores, mas sim de um grupo que tenta MANIPULAR A GRADUAÇÃO aos seus moldes e não aos moldes do mundo real e desejado pelos ALUNOS da graduação. O desejo de uma educação PLURAL em todas as áreas, de matemática, estatística, de história, de economia política, de macro e micro... Educação de QUALIDADE, que nos prepare e dê a NÓS MESMOS a opção de escolha do futuro de nossas vidas e de como queremos impactar positivamente na sociedade (seja de fazer um mestrado ou pós numa boa faculdade, ou trabalhar em empresas, terceiro setor, que seja), e não do que este tal grupo de professores pensa saber. Sei que NÃO ESTOU SOZINHO nesta opinião, e pelas conversas de corredor, acredito ser a opinião da MAIORIA dos alunos do curso. Maioria esta que já se CANSOU de demonstrar sua posição de DESACORDO COM O FUTURO QUE O CURSO ESTÁ TOMANDO, que, infelizmente, é para pior.

E, mais triste ainda, temos um GRUPO PEQUENO DE ALUNOS, uma MINORIA que, sem eles, esses professores não conseguiriam implementar suas idéias retrógradas. Se não fossem esses alunos, os demais professores seriam maioria. Eles, SEM REPRESENTAREM A VONTADE DOS ESTUDANTES, SEM AO MENOS NOS CONSULTAREM, alteram resultados de questões que irão repercutir na universidade por 20, 30 anos. O PIOR, MESMO APÓS SABEREM A OPINIÃO DOS ALUNOS, NÃO AS LEVARAM (E NEM AS LEVAM) EM CONSIDERAÇÃO! Eles estão mentindo, omitindo e manipulando as informações para imporem o que pensam. Esses alunos estão apoiando professores que acham que o curso não deve preparar para a academia nem para o mercado de trabalho, que acham que MATEMÁTICA E ESTATÍSTICA não são importantes para a ciência, que acham que nosso centro é medíocre e que temos que nos contentar com a realidade, e que por conta disso não conseguiremos contratar bons professores... é FRUSTRANTE ver ALGUNS ALUNOS APOIANDO ISSO E PREJUDICANDO OS OUTROS! Alunos se unindo a professores que não estão preocupados com a graduação, mas preocupados com FORMAÇÃO IDEOLÓGICA pura e descarada! Tive acesso à bibliografia que será utilizada no concurso e, até mesmo para TEORIA ECONÔMICA e ECONOMIA MATEMÁTICA, a bibliografia é RAZA. Já quanto à bibliografia de HISTÓRIA e DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO... sem comentários...

Por isso, POR QUERER UMA EDUCAÇÃO PLURAL, DE QUALIDADE E SÉRIA, escrevo esta CARTA DE REPÚDIO a esses professores e a esses alunos que, A DESPEITO DE TUDO, continuam a tentar nos enfiar, goela abaixo, um ensino MEDÍOCRE. Vocês não me representam, não representam a meus amigos, tampouco, acredito eu, representam A MAIORIA.

Anônimo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Heteroscedasticidade ou não Heteroscedasticidade, eis a questão...

Apesar de parecer absurdo, ainda se discute em nosso curso se a estatística é, de fato, uma disciplina relevante na formação de um economista. O texto abaixo circulou em diversos blogs durante esta semana (eu cheguei a ele por meio do "Raciocínios Espúrios"), então achei oportuno publicá-lo aqui também:

For Today’s Graduate, Just One Word: Statistics

Não deixem de ler e comentar!

Abraços a todos!