The Economist
Tradução Livre: Carlos Cinelli
Pegue duas economias vizinhas, ambas muito dependentes dos preços das commodities para obter bons resultados na balança comercial. Dê a uma delas uma política monetária ortodoxa e veja ela acolher investidores estrangeiros e adotar câmbio flutuante. Entregue a outra economia à empreendedores que recorreram à fixação de preços, proibição ou taxação sobre alguns de seus próprios produtos e mentiram descaradamente sobre a taxa de inflação. O resultado? Os travessos – a Argentina – continuam crescendo à taxa expressiva de 9%, enquanto que, por contraste, o Brasil bem-comportado caminha vagarosamente. .. É tempo de reescreverem- se os livros-textos de economia? A Argentina gostaria de achar que sim. Mas há sinais de que o Brasil poderá, ainda, chegar na frente.
Os dois países, recentemente, apresentaram números surpreendentemente fortes para o PIB. No último trimestre de 2007, o Brasil cresceu a uma taxa anualizada de 6,4% e a Argentina a uma taxa de 8%. Mas a reação a esses números, bem diferente nos dois países, é esclarecedora. Enquanto o governo brasileiro demonstrou preocupação, a Argentina recebeu a notícia como uma confirmação de seu conhecimento heterodoxo.
No Brasil, Guido Mantega, o Ministro da Fazenda, anunciou imposto de 1,5% sobre a compra de títulos públicos feita por estrangeiros, para diminuir a entrada de capital no país e arrefecer a contínua apreciação do Real. Ele afirmou que pretende se prevenir de um grande déficit em conta-corrente. Mas Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, afirmou que sua preocupação principal ainda é a inflação (que importações baratas ajudam a controlar). O presidente Lula concordou, descrevendo a inflação, há muito tempo o bicho-papão da economia brasileira, como uma “doença degradante”. Tanto Mantega como o Presidente afirmam, comumente, que preferem uma taxa contínua de crescimento a 5% por 15 anos do que um caminho mais rápido, porém mais truncado, para a riqueza.
Na Argentina, tal cautela soa como fraqueza. Seus políticos parecem determinados a demonstrar que tudo de que a América Latina precisa para crescer tão rápido quanto a China é livrar-se da camisa-de-força do neoliberalismo e seus principais patrocinadores – aqueles monstruosos detentores de títulos e o FMI. Eles alegremente apontam que as previsões para a Argentina, para os últimos cinco anos, eram de uma desaceleração. “Aqueles economistas estiveram errados muitas vezes, talvez seja hora de achar novos”, diz um informante de Cristina Fernández, a presidenta, e seu marido e predecessor, Néstor Kirchner, sobre os que previram o desaquecimento da economia.
Para entender como dois auto-intitulados líderes de esquerda vieram a abraçar políticas tão diferentes, é necessário olhar como seus países responderam à problemas econômicos em 2001-2002. A Argentina, após vários anos de quedas bruscas, abandonou o câmbio fixo, desvalorizando o peso e dando moratória em sua dívida pública. O Brasil, que tem câmbio flutuante desde 1999, respondeu à turbulência em seus mercados de câmbio e de dívida apertando as políticas fiscal e monetária.
Oficiais da Argentina estão, desde então, determinados a manter o peso desvalorizado, principalmente para proteger a indústria local. A desvalorização funcionou: a economia voltou à vida. Mas, em 2005, a maior parte da capacidade ociosa já estava de volta à ação, e novos investimentos foram insuficientes para sustentar um crescimento rápido. Kirchner afrouxou as contas do governo, aumentando salários e pensões. O crescimento continuou, mas a inflação pulou para cerca de 20% este ano. Ninguém sabe o valor exato, uma vez que o governo o “maquia”. “Eventualmente, [o país] vai perder as pistas de onde, em que nível, está a inflação”, diz Carola Sandy do Credit Suisse, um banco de investimento. “É aí que a coisa fica complicada, porque as pessoas vão começar a pensar duas vezes antes de deixar dinheiro no banco.”
Por outro lado, o Banco Central do Brasil busca uma meta para a inflação, ao invés de uma taxa de câmbio. O real tem valorizado por conta dos recordes nos preços das commodities, arrancando resmungos dos industrialistas. Mas o BACEN tem mantido sua taxa básica em 11,25% desde setembro e mesmo assim, a demanda doméstica segue forte. Com a elevação das importações, a economia é capaz de apresentar um pequeno déficit em conta-corrente pela primeira vez desde 2002.
O casal presidencial da Argentina não perde uma oportunidade para tomar crédito pelo crescimento da economia. Mas, segundo Daniel Volberg do Morgan Stanley, outro banco de investimento, o crescente aumento do preço da soja pode ter tido mais a ver com o crescimento do que as receitas econômicas dos Kirchner. Tivesse o PIB mundial e o preço das commodities crescido segundo as previsões de 2003, Volberg calcula que a Argentina cresceria apenas 3,7% ao ano. Por sua vez, o Brasil perderia apenas 1,6 ponto percentual da sua taxa de crescimento.
Então, embora ambos os países tenham se beneficiado do cenário externo favorável, o Brasil está melhor do que aparenta. Por causa da baixa inflação, em termos reais, o crescimento da renda brasileira tem começado a alcançar a Argentina. Contudo, o Brasil tem muito mais espaço de manobra caso um cenário desfavorável apareça: há espaço para a queda de juros ou aumento dos gastos governamentais. A Argentina, contrariamente, preparou-se para uma “aterrissagem pesada”. Qualquer redução nas receitas de exportação prejudicaria a base fiscal e o Banco Central argentino dificilmente poderia imprimir mais dinheiro que já imprime.
A Argentina tem certamente demonstrado que um país pode, sacrificando a estabilidade, crescer mais do que os opositores previram. Mas, eventualmente, como em qualquer país do mundo, a quantidade e a produtividade do investimento irá determinar o desempenho da economia. Com a inflação crescendo cada vez mais rápido – e ficando cada vez mais difícil de calcular – aquele investimento vai se tornar cada vez mais escassos. O investimento direto estrangeiro na Argentina cresceu apenas 12% no ano passado, enquanto que no Brasil cresceu 84% (um recorde de $35 bilhões).
Os Brasileiros podem ser perdoados por sentimentos ocasionais de inveja quanto aos vizinhos, porém coisas boas vêm para aqueles que esperam.