Por João Bollinger
Pessoal, este blog é aberto à discussão. Não estamos sempre certos aqui, e nem temos esta pretensão.
Mas aqui sustentamos nossa posição com argumentos, evidência e experiência. Se estivermos errados é só mostrar onde está o erro e reconsideraremos nossa opinião.
Podem opinar livremente, e não se intimidem. Mas lembre-se que num espaço democrático, quem fala também tem que saber ouvir.
Depois que você fala, tem que permitir ao outro o direito de discordar de você. A verdade não tem um dono ou um lado só.
E não adianta ficar dizendo que aqui o espaço não é democrático, ou que só escuta um lado. Aqui é um espaço de opinião. Se os seus argumentos são melhores que os nossos, as pessoas irão te seguir e respeitar.
Queremos ser convencidos, e não ficar ouvindo lamentações e resmungos.
Nosso objetivo é garantir a melhor formação para o aluno de economia da UFES. Só isto. E lutaremos por isto sem pedir nada em troca. Não pedimos vaga em mestrado, bolsa de pesquisa nem de PET. Queremos apenas boa formação.
E por falar em formação, cliquem aqui para vocês verem a ementa da disciplina de “Introdução à Economia”, dada no primeiro período da graduação em economia da FGV/RJ.
Desde o primeiro período eles já recebem treinamento matemático, com o objetivo de disciplinar o raciocínio lógico no estudante e motivá-los a entenderem as aplicações do calculo e da álgebra linear na Economia.
Na UFES, alguns professores dizem que não valeria à pena ter um excelente professor de Econometria. Segundo estes professores, os alunos chegam à UFES sem uma boa base matemática do ensino médio, e as disciplinas de Matemática A e B não seriam bem dadas ou aproveitadas na graduação.
Quanta ironia! Porque você não aprendeu antes, também não vai aprender depois. É colocar o aluno para sofrer duas vezes. Não adianta ter um bom professor da área quantitativa porque o aluno não sabe nada da área quantitativa. Eu não sabia que eu tinha que nascer sabendo tudo!
Em nome da má formação que o próprio curso dá, não se pode contratar mais um professor da área quantitativa? Este fraco argumento dado por alguns professores é prova da necessidade de mudar a dinâmica do curso.
E o que estes mesmos professores que afirmam isto fazem para mudar a situação? Nada. Só tiram proveito. Identificam um problema e não fazem nada para superá-lo. E isto porque são críticos...
Eu tenho uma sugestão. Adotemos um modelo que vários cursos usam, inclusive aqui na UFES e até mesmo a FGV/RJ. É o nivelamento de matemática, que em alguns lugares é conhecido como “Pré Calculo” ou “Matemática Básica”.
A minha proposta é a seguinte: ao invés de dar Matemática A no primeiro período, ela deve ser dada no segundo período. Assim você faria Matemática A no segundo período e Matemática B no terceiro período.
E também colocaria Formação e Desenvolvimento do Capitalismo para o segundo período.
Isto não compromete em nada a duração do curso.
E aqui entra o centro da minha proposta. O que colocar no lugar destas duas disciplinas? Colocar duas matérias de preparação para o calculo diferencial e álgebra linear.
O objetivo seria revisar toda a matemática do ensino médio, indo de conjuntos numéricos e funções até geometria analítica, passando por trigonometria e matrizes/determinantes.
Isto prepararia melhor o aluno para as disciplinas de calculo e álgebra linear, permitindo também que tire mais proveito de Econometria. Além de dar mais segurança ao aluno na sua base matemática.
Eu dou até a sugestão de alguns materiais, como estes que foram utilizados no ciclo de matemática básica da UFF:
Conjuntos Numéricos Curvas Planas Polinômios Reais Funções Reais
Esta proposta permite nivelar conhecimento em matemática, preparar o aluno e dar a ele mais segurança. E os professores continuarão sendo do departamento de matemática.
A boa formação em matemática deve começar já no primeiro período. Porque geralmente no inicio do curso o aluno tem mais tempo livre e, à medida que os semestres passam, o tempo livre diminui tanto porque o conteúdo das matérias aumentam quanto pela necessidade de trabalhar ou estagiar.
E, neste mesmo curso de nivelamento podem ser dados princípios básicos de regras de diferenciação e integração, encontrada em alguns livros do ensino médio (a coleção “Matemática Elementar” do Gelson Iezzi, por exemplo)
Dar formação suplementar de matemática dentro do próprio curso ao aluno só fortalece o próprio curso.
________________________________________________
Ainda considerando alguns outros argumentos, além deste de que a má formação em matemática invalida a contratação de professores, há algumas afirmações curiosas que andam pelo ED IV.
Uma dela é a descobrimento da existência de dois cursos diferentes: “Economia” e “Ciências Econômicas”.
Segundo os autores da descoberta, a diferença entre um e outro está que, na UFES, o curso é de “Ciências Econômicas”, e por isto deveria estudar mais “teoria econômica”.
Aqui surgem alguns comentários.
Sobre o caso da USP, como o Thiago já mostrou, a pessoa que afirmou isto não pesquisou direito para saber.
Se você consultar o site do catálogo de graduação da USP, verá que há na USP dois cursos de “Economia” e um de “Ciências Econômicas”.
A USP oferece o curso de “Ciências Econômicas” na Esalq/USP, que fica em Piracicaba. É um curso bem ortodoxo e com boa carga matemática.
Mas a USP também oferece o curso de “Economia” no campus de São Paulo e no campus de Ribeirão Preto. Mas ao ler a descrição dos três cursos vemos que todos são de “bacharelado em ciências econômicas”.
Mas foi dito que o curso da UFES é de “Ciências Econômicas” e deveria ver mais “teoria econômica” por causa disto. Aqui a situação se complica ainda mais para os descobridores. Como o Hugo já mostrou , estudar teoria econômica implica também em estudar matemática. O que foi dito que o curso de “ciências econômicas” deveria estudar, é justamente o que não é visto na UFES.
O curso de “Ciências Econômicas” da UFES não tem um terço da carga matemática e quantitativista que o curso de “Ciências Econômicas” da Esalq/USP tem.
E a Esalq tem o programa de mestrado e doutorado em Economia Aplicada com a mais alta avaliação do país (Capes). E os trabalhos são todos com modelos matemáticos e estatísticos. Cliquem aqui para lerem.
Tentando defender o “status quo”, criaram uma enorme armadilha para si mesmo. Além de afirmarem sem pesquisar direito, dizem que o nosso curso é diferente dos cursos de economia do país, e que deve ser igual ao tal curso de “Ciências Econômicas” da USP. Seria ótimo estudar num centro conceito 6 na CAPES e melhor avaliado que a Unicamp, a UFRJ e a PUC/RJ.
E o curso da UFES irá se tornar ortodoxo? É este o desejo dos que acreditam que nosso curso é de “Ciências Econômicas” como o da Esalq/USP?
Os autores de tão surpreendente descoberta não perceberam que seu argumento afirma o que eles querem negar, que é a necessidade de modificar o curso.
No Brasil existe apenas uma coisa: bacharelado em ciências econômicas, basta ver a lei 1411/51. E no MEC há as diretrizes curriculares apenas para o curso de “ciências econômicas” (Resolução CNE/CES nº 4, de 13 de julho de 2007). Mas a instituição de ensino coloca o nome que quiser no vestibular, mas no diploma de todos vem escrito “bacharel em ciências econômicas”.
E vejam o que dito sobre o que se espera de um economista nas diretrizes curriculares:
________________________________________________
Art. 4º Os cursos de graduação em Ciências Econômicas devem possibilitar a
formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências e habilidades:
I - desenvolver raciocínios logicamente consistentes;
II - ler e compreender textos econômicos;
III - elaborar pareceres, relatórios, trabalhos e textos na área econômica;
IV - utilizar adequadamente conceitos teóricos fundamentais da ciência econômica;
V - utilizar o instrumental econômico para analisar situações históricas concretas;
VI - utilizar formulações matemáticas e estatísticas na análise dos fenômenos
socioeconômicos; e
VII - diferenciar correntes teóricas a partir de distintas políticas econômicas.
________________________________________________
Aqui na UFES alguns seriam reprovados já no primeiro critério...
________________________________________________
Continuando no caminho das idéias exóticas, uma delas é que não adianta reclamar da dificuldade em conseguir emprego que os formados em economia pela UFES estão tendo, porque está difícil para os outros cursos também.
Isto é engraçado. Primeiro não adianta ter bons professores de métodos quantitativos porque a formação em matemática que o curso dá é precária. Agora não se pode questionar a situação do curso porque está ruim para todos?
O critério é nivelar por baixo agora? Quanto pior, melhor?
Justamente pela própria situação econômica do país, os alunos devem ser melhor formados. Hoje o aluno de economia da UFES não é cobiçado por nenhuma empresa ou centro de pos graduação, seja ele ortodoxo ou heterodoxo.
A solução apontada é sempre esta: se você quer aprender matemática, estude sozinho, pegue optativas de Calculo ou Álgebra Linear ou monte um grupo de estudos. Quando você questiona sobre a dificuldade de conseguir emprego, dizem que tudo depende do seu esforço.
Quando eu escuto isto me pergunto: o curso da UFES é à distância ou é presencial? O aluno tem que fazer tudo sozinho quando quer ter uma melhor formação. Parece curso de ensino à distância. Onde você faz tudo sozinho em casa.
Para quem se diz “crítico do individualismo”, é acreditar muito na “força” do individuo. Como diria o Robin: “Santa Contradição, Batman”.
Se os outros cursos estão com dificuldades, pode ser um problema só deles ou um problema da economia. Isto não importa para a nossa discussão. Para o curso de economia, o que importa é formar melhor.
Se está difícil mesmo para todos, aí que curso deva dar uma boa preparação e uma boa formação.
Nenhum dos argumentos apresentados anula a necessidade de fortalecer a área quantitativa do curso e garantir a pluralidade.
No curso de economia alguns professores temem muito a matemática e à econometria. Será que eles temem que, ao aprenderem lógica com a matemática e analisar dados na econometria, os alunos descubram que as idéias destes mesmos professores não têm lógica e nem se sustentam na realidade? Só pode ser isto.
A matemática não aliena ninguém. Ela não torna você de direita ou de esquerda. Entre os profissionais que mais ajudam o desenvolvimento do país estão os engenheiros, os físicos, os químicos, os biólogos, entre outros. E eles estudam muita matemática. Mas estes profissionais desenvolvem tecnologias, produtos e técnicas que são usadas tanto por grandes empresas quanto pela população carente do país. Desenvolvimentos que tanto aumentam a produtividade da economia, o conforto das pessoas e amenizam o sofrimento da miséria.
O que importa não é o conhecimento em si, mas o que você faz com ele.
Quanto melhor for o economista que a UFES formar, melhor será a contribuição dele para o pais.
Mas na UFES é diferente. Quando você entra em economia na UFES, acontece uma coisa fantástica. Tudo aquilo que você viu ou ouviu falar sobre economia está errado. É errado querer trabalhar no mercado, é errado tentar saber lidar com números, é errado você querer que as coisas sejam eficientes. O mundo inteiro entende economia do jeito errado, até mesmo os outros centros heterodoxos do país.
Porque aqui tudo é ao contrário.
Na UFES, se você quer aprender economia para ir trabalhar no mercado, é dito que você deve procurar uma faculdade particular. Mas onde está escrito que o curso de economia da UFES não pode formar para o mercado?
A Sociedade, que mantém a Universidade através dos seus impostos, foi avisada disto? Sua família foi? Há alguma lei que impeça? A revolução já começou?
O curso de economia pertence a quem? É curioso, mas algumas pessoas acham que sabem mais do que a Sociedade o que é bom para ela mesma. E onde está a procuração que a Sociedade deu para estes professores fazerem o que bem entendem com o curso?
A Universidade tem uma função social. E dentro do tripé de ensino, pesquisa e extensão, uma das obrigações da Universidade é formar profissionais capazes.
É correto demonstrar ao aluno a necessidade dele dar um retorno à sociedade, devido ao investimento que ela fez nele, e que vivemos num país com distorções sociais.
Mas se o aluno vai usar a capacidade dele para construir projetos de economia solidária ou para a gestão de risco num grande banco, é uma escolha do aluno e um risco que a sociedade corre de não ver o aluno financiado por ela dando sua contribuição para a sociedade (ele talvez faça isto através de algum trabalho voluntário ou doações). Mas isto acontece porque vivemos numa democracia. E democracia não é só votar. É apresentar e garantir oportunidade de escolha. Não podemos coagir.
E não é à toa que os professores também são servidores públicos. No mundo das escolhas democráticas, eles optaram por serem servidores públicos. Eles devem servir à sociedade, e não tirar proveito dela.
Não adianta afirmar que a sociedade não entende sua própria situação de desigualdade e contradições, que ela não superou a lógica individual e não percebeu que a Sociedade é vitima dela mesma. A Sociedade não espera que sejam formados militantes revolucionários, só bons profissionais. Mas parecem que alguns acham que devem fazer mais do que foi pedido, porque eles entendem a sociedade mais do que ela mesmo.
Se o objetivo é formar profissionais comprometidos com a democracia e a liberdade, que isto comece pelo curso, garantindo o direito de escolha.
Mas se o aluno vai fazer alguma coisa ou não pela sociedade, a escolha é do aluno ou do economista formado. Nenhum professor pode fazer isto por ele. Até porque os professores efetivos têm salário e aposentadoria garantida, quem se forma não tem esta garantia.
Se ele vai ser militante socialista, hippie, trabalhar com economia solidaria, gerente de multinacional ou banco, é uma escolha dele.
É correto o professor ter espaço para divulgar suas idéias sobre o mundo e debatê-las com os alunos. Mas faça isto respeitando os alunos e o que eles querem.
Na UFES alguns professores sentem calafrios ao ouvirem algumas palavras: mercado, matemática, econometria, eficiência.
Mas é isto, não adiante fugir. Quando os alunos se formam ou mesmo durante a graduação, eles precisam trabalhar.
O mercado está aí, quer você queira ou não. Se você não gosta dele, ou acha ele mal, você tem duas opções: entrar numa ONG ou uma comunidade alternativa ou vá virar um revolucionário, se organizar num partido e construir a revolução e lutar pelo socialismo.
Mas mesmo numa ONG ou numa comunidade alternativa, você precisa de dinheiro. E aí você vai pegar com quem? O Estado ou as empresas e contribuições voluntárias. Num partido, você vai ter de viver da contribuição dos "companheiros", que trabalham de verdade. Ou seja, você sempre vai viver do trabalho de alguém.
Respeito qualquer uma das opções. O capitalismo é selvagem mesmo, é cruel, principalmente para quem não está preparado para ele.
Mas não é sujo ou vergonhoso você ter de trabalhar. Não se sinta mal por isto. Você tem direito a escolher ter uma carreira promissora e lutar por ela. Talvez consiga, talvez não.
Não é vergonhoso você querer trabalhar numa multinacional.
E também não é um absurdo você querer estudar na FGV/RJ, na PUC/RJ ou na USP. Isto não te torna uma pessoa má.
Não é crime no Brasil você ser ortodoxo. Aqui no Brasil sempre se associa ortodoxia com a direita por causa da ditadura militar. Mas é possível ser ortodoxo e de “esquerda”.
Quer fazer a diferença no mundo, torná-lo melhor? Seja o melhor economista que você possa ser. Dê o melhor de si, cobre da Universidade tudo o que ela puder te dar e mais um pouco. Faça um bom trabalho e seja um economista influente. Publique livros, escreva para jornais, denuncie. Não são palavras vazias ou citações de trechos de livros que irão mudar o mundo.
O mundo é feito por atitudes e não por intenções.
________________________________________________
E para terminar, não estamos aqui para discutir sobre quem está certo ou quem está errado. É sobre quem quer e quem não quer melhorar o curso, torná-lo mais plural.
E aqui no blog pode opinar à vontade, nós não fazemos patrulhamento ideológico.
Mas por trás do discurso de “não podemos achar que estamos sempre certos” ou “não adianta discutir se não vamos mudar nossa opinião”, está escondido o interesse em manter tudo como está.
É apenas isto. Não há argumentos, apenas divagações.
Aqui no blog não estamos sempre certos, mas até agora nesta discussão não nos mostraram onde estamos errados. É uma pena.
Quem teme estas mudanças? No fim das contas, quem está com medo das mudanças é justamente quem tem medo de perder o controle.
E há aqueles que tentam tirar proveito para colher alguma migalha, apoiando o lado reacionário. Cada um faz o que quer da sua vida. Mas não podemos fazer isto abrindo mão da coerência.
Mas agora que os argumentos caíram todos, surge a coisa mais fantástica e absurda de todas.
Nós aqui do blog viramos pessoas más. Como os argumentos caíram todos, e não há justificativas para continuar defendendo o que defendem e apoiando quem apóiam, somos chamados de arrogantes, presunçosos e mal educados.
Mais uma vez é a tentativa de ridicularização. Não conseguem argumentar e aí inventam rótulos: “eles são pessoas más e arrogantes”.
É o cumulo do absurdo, na falta de argumentos se fazerem de vítimas. E nós do blog é que somos acusados de fazer artes cênicas. Quanto drama...
Aqui nós não atacamos ninguém, as pessoas é que são vitimas das próprias palavras ou atitudes.
E agora fica transparente que algumas pessoas se apoiaram em argumentos frágeis.
O blog ganhou força porque através dele foi feito um debate que não foi permitido no curso e nem se permite. E agora que vários alunos estão consultando o blog diariamente, querem ridicularizar. O blog virou o “covil dos lobos”.
Pode ser que aqui a maioria pense do mesmo jeito. Mas todos vieram parar aqui porque no curso não houve espaço para esta discussão, e nem há. O blog deu vazão ao desejo de mudar o curso.
A situação ideal é que esta discussão ocorresse dentro do curso, e não no blog. Porque o mais importante não é o blog, mas a solução da realidade do curso com a participação de todos.
O blog hoje é um espaço importante, porque quem tentar discutir a necessidade de ter mais matérias quantitativas em sala de aula é ridicularizado por muitos professores e alunos.
A força do blog não vem da arrogância ou da presunção de quem escreve aqui, vem da falta de democracia, respeito e pluralidade que alguns professores tratam a formação e a vida futura do aluno em economia da UFES.
O tamanho do post é proporcional ao tamanho das afirmações contraditórias que temos que comentar.