quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um pouco de essência num dia chuvoso... chuva essencial que nos permite ficar molhados

(…) é primeiramente a música que desperta o sentido musical do homem; para o ouvido não musical a mais bela música não tem sentido algum, não é objeto, porque meu objeto só pode ser a confirmação de uma de minhas forças essenciais, isto é, só é para mim na medida em que minha força essencial é para si, como capacidade subjetiva, porque o sentido do objeto para mim (somente tem um sentido a ele correspondente) chega justamente até onde chega meu sentido; (…) É somente graças à riqueza objetivamente desenvolvida da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva é cultivada, e é em parte criada, que o ouvido torna-se musical, que o olho percebe a beleza da forma, em resumo, que os sentidos tornam-se capazes de gozo humano, tornam-se sentidos que se confirmam como forças essenciais humanas. Pois não só os cinco sentidos, como também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor, etc.), em uma palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos, constituem-se unicamente mediante o modo de existência de seu objeto, mediante a natureza humanizada. (…) O sentido que é prisioneiro da grosseira necessidade prática tem apenas um sentido limitado. Para o homem que morre de fome não existe a forma humana da comida, mas apenas seu modo de existência abstrato de comida; esta bem poderia apresentar-se na sua forma mais grosseira, e seria impossível dizer então em que se distingue esta atividade para alimentar-se da atividade animal para alimentar-se. O homem necessitado, carregado de preocupações, não tem senso para o mais belo espetáculo. O comerciante de minerais não vê senão seu valor comercial, e não sua beleza ou a natureza peculiar do mineral; não tem senso mineralógico. A objetivação da essência humana, tanto no aspecto teórico como no aspecto prático, é pois, necessária, tanto para tornar humano o sentido do homem, como para criar o sentido humano correspondente à riqueza plena da essência humana e natural. (Marx, 1978, p. 12).

8 comentários:

  1. "É somente graças à riqueza objetivamente desenvolvida da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva é cultivada"

    Em outras palavras: graças ao capitalismo!

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  2. anônimo: de qualquer forma, Marx nunca disse que o capitalismo não é necessário... ao contrário, ele precisa existir a todo vapor para ocorrer o conflito dialético que resultará no modo de produção ideal (ideal pra Marx; melhor deixar claro aqui que isso não expressa minha opinião).

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  3. Minha interpretação é diferente da do anônimo. Quando Marx escreveu "riqueza objetivamente desenvolvida da essência humana" ele não estava se referindo ao capitalismo, à produção em série. Ele se referia à produção material da essência humana, quais sejam seus sentimentos transformados em arte (música, poesia, literatura, escultura-arquitetura, pintura, isto é, a expressão material de um dom divino. Depois, ele escreve "que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva é cultivada". Mais uma vez, ele quis expressar nessas poucas palavras que é somente entrando em contato com a essência da riqueza humana objetivada, que se pode dar uma personalidade, moldar a própria riqueza da sensibilidade individual, a qual é intrínsicamente subjetiva. Pode-se concluir que esta é completamente passível de objetivação material, desde que o indivíduo a compreenda.
    Logo depois ele escreve: "É somente graças à riqueza objetivamente desenvolvida da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva é cultivada, e é em parte criada, que o ouvido torna-se musical, que o olho percebe a beleza da forma, em resumo, que os sentidos tornam-se capazes de gozo humano, tornam-se sentidos que se confirmam como forças essenciais humanas".

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  4. Também não vi ligação alguma com qualquer sistema de produção específico. O pior vício dos economistas é procurar explicações estritamente econômicas para tudo, como já insistia o grande Prof. Geraldo nas (saudosas) aulas de FDC!
    Texto atemporal, poético e de muito bom gosto. Ótima literatura para dias chuvosos mesmo!

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  5. Download, a referência está incompleta... esse trecho é de que texto?

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  6. Adoro filosofia. Nunca é clara e objetiva, e só faz sentido fora do contexto se estiver num livro de auto-ajuda. Esse fragmento usa a arte como subterfúgio metafórico para resumir o que foi explicado no restante do terceiro manuscrito econômico filosófico de Marx (de onde foi retirado com algumas subtrações desnecessárias), intitulado Propriedade Privada e Comunismo e que pode ser encontrado em http://marxists.anu.edu.au/portugues/marx/1844/08/man_eco_filo/cap05.htm

    Portanto o “Anônimo” e Igor estão quase corretos porque sim, estamos falando do modo de produção capitalista. Não das fábricas, mas da relação do homem, sua natureza, a concepção de propriedade privada e objeto, e a solução para todo esse mal (o comunismo).

    Segundo o autor, a propriedade privada, embora historicamente necessária, abstrai do homem sua essência substituindo-a pelo sentimento de ter, pelo objetivismo. Portanto, é o desdobramento da “riqueza objetiva” (a propriedade privada) que criará a “riqueza da sensibilidade humana subjetiva” (o que ele chama de bom ouvido musical, mas que eu leio como comunismo).
    A anulação da propriedade privada - o comunismo - seria a resposta para a eliminação das contradições entre subjetivismo e objetivismo, e assim a libertação da essência do homem social.

    Portanto, esse fragmento não tem nada a ver com arte. Ele apenas usa o argumento da arte, assim como fazem nossos políticos com o futebol pra explicar economia.

    Afinal “a religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, a arte, etc., são apenas formas particulares de produção e enquadram-se em sua lei geral.” Como disse no mesmo texto o não-tão-bom velhinho.

    Vinícius Barcelos - o Porco Capitalista

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  7. Não li o manuscrito na íntegra e, confesso, não sinto a menor vontade de fazê-lo. O meu comentário se restringiu ao conteúdo do excerto aqui postado, para mim, repito, arte, poesia pura e de muito bom gosto e, convenhamos, sem qualquer menção a modos de produção. Mas se os comentários anteriores consideraram o trecho como parte de um todo, do manuscrito – o que não sei se foi o caso – beleza, erro meu!

    Obviamente, não sou “ingênua” (como os marxistas que conheci gostam desse termo!) para pensar que Marx ia dar um ponto sem nó e perder seu tempo escrevendo um texto filosófico totalmente esvaziado de conteúdo ideológico. Imagino que ele tenha usado a arte, a música, etc, como parábolas para alcançar o ápice de sua defesa do comunismo mais à frente.

    De toda forma, gosto de parábolas – e desta, em específico – gostei do que li, e, sem ofensas aos apreciadores do marxismo (lembrando aqui que esta é uma opinião pessoal e que, no capitalismo, temos direito à liberdade de expressão), toda a parcela da produção literária de Marx com que tive contato durante a graduação (e não foi pouca coisa), considerada por muitos, ideologia ou, até mesmo, teoria econômica, para mim, não passou de narrativa histórica, essa, por sua vez, presa à sua época, anacrônica. O que não retira seu posto de leitura agradável em dias chuvosos, indispensável (sim!), para a minha formação como cientista.

    Mesmo se contextualizada, como o “porco capitalista” bem o fez (“A anulação da propriedade privada - o comunismo - seria a resposta para a eliminação das contradições entre subjetivismo e objetivismo, e assim a libertação da essência do homem social.”), para mim, é poesia pura.

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  8. Como assim, "a filosofia nunca é clara e objetiva"? Culpe só os alemães!

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