Às vezes lemos algumas coisas que nos levam a conclusões que quando são confrontadas com a realidade são absurdas.
E talvez por isto a heterodoxia tenha tanta restrição à matemática, pois a matemática exige lógica, e quando tentamos escrever matemáticamente certas idéias, veremos que há uma enorme contradição entre o discurso e as conclusões práticas das idéias.
Alguns economistas heterodoxos, que se dizem progressistas e defensores da redução da desigualdade social, e que querem dar uma formação "crítica" aos seus alunos, costumam defender algumas idéias como estas aqui: reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público. Estas medidas permitiriam à economia crescer mais e amenizar questões sociais.
Vamos ver o que acontece quando tentamos pensar logicamente nestas questões?
Vemos que muitos defendem uma maior participação do Estado na economia. Mas pensemos numa coisa simples. Quem gasta melhor o seu dinheiro: você ou o Estado? É você mesmo. Então toda a vez que o Estado cresce seu tamanho na economia, cresce junto a ineficiência na economia.
E basta pensar que deve ter uma pessoa para planejar como arrecadar (Receita Federal), alguém para pensar como gastar (ministérios, deputados e senadores), alguém para fiscalizar os gastos (Tribunal de Contas, Polícia Federal, etc). Ou seja, a decisão de uma pessoas comprar feijão preto ou vermelho quando é feita pelo pelo Estado envolve um custo enorme (isto é sem considerar a corrupção).
Por isto o Estado não deve ser grande demais e nem crescer em qualquer direção, apenas naquilo que é essencial. Quando o Estado tributa você, ele diminui a sua renda e reduz sua capacidade de escolha. Isto não é democrático.
Mas podemos ver uma outra questão simples, que é sobre quem se beneficia com o crescimento dos gastos do Estado. Pois muita gente por aí diz que isto é feito para beneficiar os mais pobres.
Considerando um modelo como aquele dos esquemas de reprodução do Marx ou do Kalecki, que divide a economia em bens de consumo dos capitalistas e dos trabalhadores, podemos pensar no seguinte:
em equilíbrio, a oferta (O) é igual à demanda (D)
O = D
e a demanda na economia é formada pelos bens demandados pelos trabalhadores (Cw), pelos bens demandados pelos capitalistas (Ck), pelos bens demandados para investimento (I) e pelos bens demandados pelo governo (G):
D= Cw + Ck + I + G
e a oferta é dada pelos salários (W), lucros dos capitalistas (L) e pelos impostos (T)
O = W + L + T
Se, no equilíbrio, a oferta é igual à demanda, temos que
O = D
W + L + T = Cw + Ck + I + G
Na visão heterodoxa, os trabalhadores gastam tudo o que ganham e não poupam (dado os baixos salários, tudo vai para consumo), então
W = Cw
W - Cw = 0
rearranjando os termos
L = Ck + I + (G - T)
O lucro dos capitalistas (L) é dado pelo consumo dos capitalista (Ck), investimento (I) e gastos do governo (G - T).
Olhando para esta equação, qual é a nossa conclusão? Que quanto mais o governo gastar (G-T>0), maior será o lucro dos capitalistas. Quem mais se beneficia com o aumento dos gastos do governo não são os trabalhadores ou mais pobres, e sim os capitalistas. E se olharmos para o financiamento do déficit público, fica mais interessante.
A poupança nesta economia, que é igual à poupança dos capitalistas, é dada pela diferença entre os seus lucros e os seus gastos de consumo (L - Ck), então temos que:
L = Ck + I + (G - T)
L - Ck = I + (G - T)
S = I + (G - T)
O que isto quer dizer? Que a poupança dos capitalistas pode ir para bens de investimento ou para títulos públicos que financiam o déficit público. Outra forma de você aumentar o lucro dos capitalistas, sem que eles tenham que investir, é elevar o déficit público. Ou seja, um maior gasto público facilita a vida dos capitalistas.
Outra questão é o controle da inflação, que alguns acham exagerada a preocupação de colocar a inflação sob controle e que um pouco de inflação ajuda no crescimento. Vamos olhar melhor a questão e ver quem ganha e quem perde com a inflação (e como é frágil e injusto crescer com base na inflação)
Vamos usar um modelo simples em que os preços na economia são formados colocando uma margem de lucro (mark up) sobre os custos diretos, e vamos supor que o principal custo é o salários e que as empresas tem poder de mercado (mark up), então dentro do "mark up" estão os valores para cobrir outros custos, então será assim:
W = salários
P = preço
(1 + k) = mark up
então temos que:
P=(1 + k).W
Mas o que importa na economia são os valores reais, que são aqueles quando descontamos a inflação, e no caso dos salários, o que importa é o salário real. Dividindo a equação anterior pelos preços, temos que:
P/P = (1 + k).W/P
1 = (1+ k).W/P
1/(1 + k) = W/P
W/P = 1/(1 + k)
Quando temos inflação, quer dizer que os preços estão crescendo (P), e dada a equação acima, significa que os salários reais estão caindo e os trabalhadores perdem renda. Mas para manter a igualdade, temos que o mak up (1 + k) terá de se elevar, ou seja, o lucro dos capitalistas se eleva. É por isto que a economia cresce um tempo, pois parte da renda dos trabalhadores está indo financiar o investimento.
Assim fica fácil crescer por um tempo. Mas acontece que os trabalhadores aprendem que a inflação está fora de controle, e começam a exigir que os salários sejam reajustados com base na inflação esperada (Pe) e não na inflação passada ou atual (P), quando isto acontece, o milagre de crescer com inflação desaparece. Aliás, o crescimento vai embora e fica apenas a inflação. Isto ficou conhecido como estagflação (comum nos anos 70).
Fazer a economia crescer com inflação gera apenas concentração de renda. Não é o crescimento que cria desigualdade, mas a forma como ele é feito, principalmente quando se dá apenas via acumulação de capital (grandes indústrias) e não se prioriza os ganhos de produtividade (educação, infraestrutura, etc).
Deve ficar claro para todos que a inflação é um tipo de imposto que extrai renda dos mais pobres em favor do Governo e dos mais ricos. E por isto a renda é concentrada no Brasil, pois desde os anos 30 crescemos via ondas inflacionárias e crises.
E uma tentativa de desvalorizar o câmbio artificialmente, como alguns querem, tem apenas o efeito de criar inflação (o que reduz a renda real dos trabalhadores) e aumentar o lucro dos capitalistas.
Mas é curioso que vemos estas medidas (reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público) sendo propostas por pessoas que dizem possuir o tal "pensamento crítico" e que se preocupam apenas com os mais pobres.
Vimos aqui que quem se beneficia são apenas os mais ricos. Este é o tal "pensamento crítico"?
Sempre deve ficar claro que o que importa não são as motivações ou intenções e sim os resultados. E vemos que, apesar das boas intenções, acabamos tendo resultados opostos àqueles previstos inicialmente.
