sexta-feira, 22 de abril de 2011

O que sobrou das boas intenções?


Às vezes lemos algumas coisas que nos levam a conclusões que quando são confrontadas com a realidade são absurdas.

E talvez por isto a heterodoxia tenha tanta restrição à matemática, pois a matemática exige lógica, e quando tentamos escrever matemáticamente certas idéias, veremos que há uma enorme contradição entre o discurso e as conclusões práticas das idéias.

Alguns economistas heterodoxos, que se dizem progressistas e defensores da redução da desigualdade social, e que querem dar uma formação "crítica" aos seus alunos, costumam defender algumas idéias como estas aqui: reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público. Estas medidas permitiriam à economia crescer mais e amenizar questões sociais.

Vamos ver o que acontece quando tentamos pensar logicamente nestas questões?

Vemos que muitos defendem uma maior participação do Estado na economia. Mas pensemos numa coisa simples. Quem gasta melhor o seu dinheiro: você ou o Estado? É você mesmo. Então toda a vez que o Estado cresce seu tamanho na economia, cresce junto a ineficiência na economia.

E basta pensar que deve ter uma pessoa para planejar como arrecadar (Receita Federal), alguém para pensar como gastar (ministérios, deputados e senadores), alguém para fiscalizar os gastos (Tribunal de Contas, Polícia Federal, etc). Ou seja, a decisão de uma pessoas comprar feijão preto ou vermelho quando é feita pelo pelo Estado envolve um custo enorme (isto é sem considerar a corrupção).

Por isto o Estado não deve ser grande demais e nem crescer em qualquer direção, apenas naquilo que é essencial. Quando o Estado tributa você, ele diminui a sua renda e reduz sua capacidade de escolha. Isto não é democrático.

Mas podemos ver uma outra questão simples, que é sobre quem se beneficia com o crescimento dos gastos do Estado. Pois muita gente por aí diz que isto é feito para beneficiar os mais pobres.

Considerando um modelo como aquele dos esquemas de reprodução do Marx ou do Kalecki, que divide a economia em bens de consumo dos capitalistas e dos trabalhadores, podemos pensar no seguinte:

em equilíbrio, a oferta (O) é igual à demanda (D)

O = D

e a demanda na economia é formada pelos bens demandados pelos trabalhadores (Cw), pelos bens demandados pelos capitalistas (Ck), pelos bens demandados para investimento (I) e pelos bens demandados pelo governo (G):

D= Cw + Ck + I + G

e a oferta é dada pelos salários (W), lucros dos capitalistas (L) e pelos impostos (T)

O = W + L + T

Se, no equilíbrio, a oferta é igual à demanda, temos que

O = D

W + L + T = Cw + Ck + I + G

Na visão heterodoxa, os trabalhadores gastam tudo o que ganham e não poupam (dado os baixos salários, tudo vai para consumo), então

W = Cw
W - Cw = 0

rearranjando os termos

L = Ck + I + (G - T)

O lucro dos capitalistas (L) é dado pelo consumo dos capitalista (Ck), investimento (I) e gastos do governo (G - T).

Olhando para esta equação, qual é a nossa conclusão? Que quanto mais o governo gastar (G-T>0), maior será o lucro dos capitalistas. Quem mais se beneficia com o aumento dos gastos do governo não são os trabalhadores ou mais pobres, e sim os capitalistas. E se olharmos para o financiamento do déficit público, fica mais interessante.

A poupança nesta economia, que é igual à poupança dos capitalistas, é dada pela diferença entre os seus lucros e os seus gastos de consumo (L - Ck), então temos que:

L = Ck + I + (G - T)

L - Ck = I + (G - T)

S = I + (G - T)

O que isto quer dizer? Que a poupança dos capitalistas pode ir para bens de investimento ou para títulos públicos que financiam o déficit público. Outra forma de você aumentar o lucro dos capitalistas, sem que eles tenham que investir, é elevar o déficit público. Ou seja, um maior gasto público facilita a vida dos capitalistas.

Outra questão é o controle da inflação, que alguns acham exagerada a preocupação de colocar a inflação sob controle e que um pouco de inflação ajuda no crescimento. Vamos olhar melhor a questão e ver quem ganha e quem perde com a inflação (e como é frágil e injusto crescer com base na inflação)

Vamos usar um modelo simples em que os preços na economia são formados colocando uma margem de lucro (mark up) sobre os custos diretos, e vamos supor que o principal custo é o salários e que as empresas tem poder de mercado (mark up), então dentro do "mark up" estão os valores para cobrir outros custos, então será assim:

W = salários
P = preço
(1 + k) = mark up

então temos que:

P=(1 + k).W

Mas o que importa na economia são os valores reais, que são aqueles quando descontamos a inflação, e no caso dos salários, o que importa é o salário real. Dividindo a equação anterior pelos preços, temos que:

P/P = (1 + k).W/P
1 = (1+ k).W/P
1/(1 + k) = W/P

W/P = 1/(1 + k)

Quando temos inflação, quer dizer que os preços estão crescendo (P), e dada a equação acima, significa que os salários reais estão caindo e os trabalhadores perdem renda. Mas para manter a igualdade, temos que o mak up (1 + k) terá de se elevar, ou seja, o lucro dos capitalistas se eleva. É por isto que a economia cresce um tempo, pois parte da renda dos trabalhadores está indo financiar o investimento.

Assim fica fácil crescer por um tempo. Mas acontece que os trabalhadores aprendem que a inflação está fora de controle, e começam a exigir que os salários sejam reajustados com base na inflação esperada (Pe) e não na inflação passada ou atual (P), quando isto acontece, o milagre de crescer com inflação desaparece. Aliás, o crescimento vai embora e fica apenas a inflação. Isto ficou conhecido como estagflação (comum nos anos 70).

Fazer a economia crescer com inflação gera apenas concentração de renda. Não é o crescimento que cria desigualdade, mas a forma como ele é feito, principalmente quando se dá apenas via acumulação de capital (grandes indústrias) e não se prioriza os ganhos de produtividade (educação, infraestrutura, etc).

Deve ficar claro para todos que a inflação é um tipo de imposto que extrai renda dos mais pobres em favor do Governo e dos mais ricos. E por isto a renda é concentrada no Brasil, pois desde os anos 30 crescemos via ondas inflacionárias e crises. 

E uma tentativa de desvalorizar o câmbio artificialmente, como alguns querem, tem apenas o efeito de criar inflação (o que reduz a renda real dos trabalhadores) e aumentar o lucro dos capitalistas.

Mas é curioso que vemos estas medidas (reduzir a selic, elevar a meta de inflação, desvalorizar o câmbio e elevar o gasto público) sendo propostas por pessoas que dizem possuir o tal "pensamento crítico" e que se preocupam apenas com os mais pobres.

Vimos aqui que quem se beneficia são apenas os mais ricos. Este é o tal "pensamento crítico"?

Sempre deve ficar claro que o que importa não são as motivações ou intenções e sim os resultados. E vemos que, apesar das boas intenções, acabamos tendo resultados opostos àqueles previstos inicialmente.

3 comentários:

  1. Parabéns Rogério,
    Muito interessante seu post.
    Só queria ressaltar que ficou faltando dar uma possível solução à um crescimento que não gerasse disparidade de renda, o qual, na minha opnião, só se roselve com investimento em educação básica e superior, melhoria da infra-estrutura, readequação da composição industrial para um nível ótimo e reforma tributária.

    ResponderExcluir
  2. Excelente exposição, só gostaria de acrescentar que com lidamos com a economia entendemos que os processos são dinâmicos, assim mesmo que exista uma possibilidade de ocorrência de determinados resultados de alguma política adotada não é possível afirmar que irá ocorrer. Um exemplo claro foi a atuação do governo americano em relação a última crise econômica que adotou por determinado período políticas de intervenção do estado ativas na economia, sendo que os EUA são conhecidos pelo menos no campo da economia como extremamente defensores das forças de mercado, entretanto caso não fossem adotados essas medidas os efeitos da crise poderia ser muito maiores.

    Marlon

    ResponderExcluir
  3. Obrigado pelos comentários!

    Mas temos que ver que cada cenário exige uma política diferente.

    Não dá para comparar um aumento do gasto público numa economia com elevado desemprego como nos EUA e a mesma coisa no Brasil onde estamos numa situação muito diferente deles.

    Lá eles estavam com deflação nos preços e desemprego elevado, e adotaram uma política que acharam mais conveniente para o momento.

    No caso do Brasil, o desemprego está nos menores níveis e a utilização da capacidade também. O resultado de maior gasto é o que vemos: inflação.

    Políticas de expansão de demanda em economias com demanda aquecida é querer apagar fogo com gasolina.

    E quem se beneficia com a inflação? Pois ela não é neutra. E sabemos que o governo até aumenta a sua arrecadação com ela.

    E sobre crescer sem disparidade de renda, é isto mesmo. Crescer dando igualdade de oportunidades e sem artificialismos. Educação, infra-estrutura e condições favoráveis ao livre empreendimento.

    ResponderExcluir

Participe!