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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Nos bastidores da "Colação de Grau" da Economia Brasileira

Hoje, no auditório do hotel Bristol, houve uma palestra intitulada "IFRS no Brasil: Análise dos Principais Impactos da Migração para o Modelo Internacional", ministrada pelos professores doutores em contabilidade Fábio Moraes da Costa e Fernando Caio Galdi.

A palestra tratou do processo de convergência das normas contábeis brasileiras (e no mundo) para o padrão internacional IFRS (International Financial Reporting Standards), feito pela IASB (International Accounting Standards Board).

A "aula" dos professores foi interessante, mas, dentre várias coisas, uma me chamou a atenção: um comentário de Galdi sobre a Lei 11.638 que "direciona" o Brasil para essa convergência.

Com a chegada do Investment Grade, observamos um grande fluxo de capital estrangeiro vindo para o país, não só para os títulos públicos, mas também para a bolsa.

Contudo, apesar de o Grau de Investimento ter sido fundamental para o que alguns chamaram de "colação de grau" da economia brasileira (e que trouxe maior fluxo de capital estrangeiro para cá), a 11.638 também pode ter sido crucial.

Como?

De uma forma simples, parafraseando o professor: os investidores internacionais não entendiam os balanços brasileiros.

Em outras palavras, quem vai investir num negócio no qual você não sabe realmente o seu retorno? Para dar um exemplo, no último balanço da TAM, o Lucro contabilizado nos padrões brasileiros ficou em cerca de R$ 50 milhões, enquanto que no padrão inglês chegou à casa dos R$ 200 milhões. Isso por conta de uma diferença na contabilização das operações de leasing.

Realmente, parece que algo relevante para a "colação de grau" não teve a atenção suficiente dos comentários gerais, ficando para os bastidores.

Na palestra, também foi interessante notar que nosso padrão contábil ainda tem um foco muito específico: o fisco. Com essas mudanças, espera-se ter um foco mais geral: o investidor, aquele que urge pelas informações contábeis (não só o megainvestidor, mas inclusive você que está lendo esse texto e tem 200 reais em ações da Vale).

Off-topic: próximo post é um resumo de um texto do Hodgson sobre o debate da teoria da moeda de Menger.

Abraços!

Comentem...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Nota de conjuntura: grau de investimento e Fundo Soberano

Pessoal,

Saiu hoje a edição de Maio do BIF - Boletim de Informações da FIPE, publicação eletrônica mensal, cujos colaboradores são professores do Departamento de Economia da FEA/USP, pesquisadores da FIPE e alunos dos programas de mestrado e doutorado do IPE/USP.

Segue abaixo a Nota de Conjuntura, escrita pelo Professor Carlos Eduardo Gonçalves, do Departamento de Economia da FEA-USP. Nela, o professor manifesta suas preocupações acerca da concessão do grau de investimento, no sentido de se evitar o potencial “Moral Hazard” que a nova nota pode acarretar, e da criação do “exótico e confuso” Fundo Soberano, destacando que o governo incorre novamente no erro de escolher vencedores no momento de injetar recursos em empresas nacionais, “prática que no passado só serviu para desperdiçar dinheiro de impostos em empresas pouco competitivas”.

Em outras palavras, Roberto Campos, em artigo de 1997, aqui postado na semana passada, já ironizava: “Os entusiastas da política industrial têm uma qualidade em comum com os políticos e os amantes: o esquecimento das experiências passadas.”

Para quem tiver interesse na publicação completa, o download pode ser feito clicando no seguinte link:

http://www.fipe.org.br/Publicacoes/downloads/bif/2008/5_bif332.pdf

Abraços a todos. Comentem!!!


Nota de conjuntura: grau de investimento e Fundo Soberano1

Carlos Eduardo Gonçalves - Professor do Departamento de Economia da FEA-USP e Economista do Grupo de Conjuntura da Fipe.
(E-mail: cesg@usp.br
)

Há pouco mais de 20 anos, era extinta a famigerada Conta Movimento, a qual, ligando de modo espúrio o Banco Central ao Banco do Brasil, desvirtuava a política monetária colocando-a a serviço da farra fiscal. Ali, na alvorada da democracia, começava a reestruturação da economia brasileira, que seguiu se aprimorando institucionalmente com os adventos da abertura econômica, estabilização inflacionária, implementação da LRF e do sistema de Metas com câmbio flutuante, para citar algumas das mudanças mais significativas. Como prêmio a esta seqüência de decisões acertadas, recebemos, há poucos dias, o título de Grau de Investimento, segundo a classificação da Standard & Poor’s, o que abre as portas para maior entrada de investimentos estrangeiros no Brasil.

Preocupa-me, contudo, que o carimbo, ou selo de credibilidade que nos foi acordado, termine afetando adversamente os incentivos políticos no sentido de retardar ainda mais o encaminhamento e aprovação da miríade de reformas pró-desenvolvimento econômico que nos fariam crescer mais rápido e distribuir melhor a renda. Complacência, ou Moral Hazard no jargão do economista, é o que mais precisamos evitar neste momento.

Sob a óptica “do fazer a fama para deitar na cama”, a promoção não poderia ter vindo em pior hora. Os sinais de deterioração da política fiscal abundam e o superávit primário ainda não caiu apenas por conta de uma arrecadação que não pára de bater recordes. Vale lembrar que vivemos em um mundo permeado de riscos ao crescimento, e se este desacelerar, perderemos arrecadação, mas ficaremos com o ônus dos gastos permanentemente mais altos. Deveríamos estar aproveitando o boom de arrecadação para diminuir substancialmente o endividamento público, preparando-nos, assim, para mares mais revoltos. Mas estamos aproveitando-o para satisfazer o voraz apetite por mais gasto. Afinal, para que aumentar a prudência se agora somos Grau de Investimento? Dá-lhe Moral Hazard!

Nesta toada, pouco após virarmos Grau de Investimento, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a criação do Fundo Soberano. Este tipo de Fundo é comum em países com grandes quantidades de algum importante recurso natural, e sua existência visa: (i) evitar que a apreciação cambial expressiva que advém da exportação de grandes volumes de um único recurso (cobre, no Chile; petróleo, na Noruega) destrua a competitividade dos outros produtores de bens comercializáveis, e (ii) levar para as gerações futuras os benefícios do esgotável recurso natural presente. Porém, as exportações brasileiras são extremamente diversificadas e, portanto, não nos enquadramos no grupo de países que se beneficiam deste tipo de instituição econômica.

Mantega disse querer usar os recursos fiscais do Fundo para investir em empresas brasileiras no exterior. De novo a história do Estado escolhendo vencedores, prática que no passado só serviu para desperdiçar dinheiro de impostos em empresas pouco competitivas.

Fica a pergunta: para que emprestar dinheiro barato para empresários de sucesso em país tão cheio de carências? Por fim, se o objetivo for buscar maior remuneração para certa parcela das reservas, não há necessidade de se criar para isto um pomposo Fundo Soberano.

Será que se ainda estivéssemos lutando para chegar ao Grau de Investimento, o governo não estaria usando o “excesso” de arrecadação para reduzir a dívida, em vez de criar um exótico e confuso Fundo Soberano?

1 As opiniões contidas nesta nota são de responsabilidade do autor, mas também expressam as opiniões apresentadas nas reuniões do Grupo de Conjuntura da FIPE.

sábado, 3 de maio de 2008

Colação de grau


Ainda sobre a elevação do Brasil à categoria de grau de investimento (investment grade), aí está um texto de Sérgio Malbergier no Folha Online.

Aproveito pra deixar o link do site do Fato em Foco, um especial da CBN que aborda diversas questões, mas que no último sábado abordou a polêmica da alta dos alimentos e neste sábado o assunto foi a importância dos chamados "países em desenvolvimento".

Gostando ou não, comentem !
Marco Antonio


Colação de grau
01/05/2008

Melhor do que receber o grau de investimento, foi recebê-lo em meio a uma crise financeira internacional que em outros tempos teria devastado a economia brasileira.

Melhor ainda foi obtê-lo com nosso primeiro presidente, vá lá, de esquerda, o que em nossos vizinhos sul-americanos trouxe devastação.

Lula é muito melhor do que eles, pois se é tolerante com a nefasta prática política brasileira que o forjou presidente, enxergou o óbvio na economia: o imperativo de jogar dentro das regras do mercado, não desafiá-lo primariamente como seus contemporâneos esquerdistas, os Chávez, Kirchners e Morales.

Lula e o Brasil temos todos os motivos para festejarmos a colação de grau da economia brasileira, mas é preciso não deixar a festa e os recordes da Bovespa ofuscarem os enormes defeitos e desafios do país.

A chancela de bom pagador que recebemos significa basicamente que, na visão de uma (desmoralizada) agência de avaliação de risco americana, o país tem condições de pagar sua dívida.

Com ela, enormes fundos de investimento estrangeiros, antes impedidos de investir em papéis brasileiros, poderão fazê-lo, elevando nossa capacidade de atrair capital. E é com capital que o capitalismo avança.

Mas países como o Chile já têm esse selo. E, com todo respeito a eles, é prova de que recebê-lo não resolve a vida de ninguém.

Falta ao Brasil fazer a parte mais difícil, como sanear a política, passar as reformas urgentes há décadas, ter um Judiciário eficaz, educação de qualidade, combater a corrupção e a violência urbana... a lista é enorme. A economia saiu na frente, como sempre, mas o resto do país e suas instituições precisam segui-la.

Estamos como um aluno promissor que colou grau numa boa faculdade, cheio de planos e esperanças na estrada do futuro.

Tudo pode dar errado. É preciso pé no chão e mão na massa para tornar o potencial brasileiro no Brasil potência. O diploma já temos, falta todo o resto.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Standard & Poor`s eleva Brasil a categoria de grau de investimento

Já não é mais novidade para ninguém: somos investment grade! Seguem três notas interessantes a respeito da inclusão do Brasil no grupo de países com baixo risco, extraídas do site Valor Econômico.
Abs,
Mariana.

Standard & Poor`s eleva Brasil a categoria de grau de investimento

Valor Online
30/04/2008 15:55


SÃO PAULO - A agência de classificação de risco Standard & Poor`s elevou há pouco a nota de crédito (rating) da dívida externa e de longo prazo do Brasil de BB+ para BBB-. Com a elevação, o país entra para o grupo de países considerados de baixo risco, chamado de grau de investimento, ou investment grade.

Aguardada há alguns anos pelo governo e por agentes do mercado financeiro, a notícia foi vista com surpresa pelo mercado, já que não era esperada ainda neste primeiro semestre.

O principal benefício de o país se tornar investment grade é atrair grandes investidores institucionais de países desenvolvidos que, por regras dos seus estatutos, só podem investir em ativos considerados de baixo risco.

(Valor Online)

Amadurecimento de instituições, pragmatismo e endividamento menor garantiram investment grade

Valor Online
30/04/2008 17:04


SÃO PAULO - A tão esperada inclusão do Brasil no grupo dos países com baixo risco de crédito pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s ocorreu devido ao amadurecimento das instituições e das políticas públicas, que resultou na diminuição da carga da dívida externa e interna e melhorou a tendência de crescimento econômico. A S & P elevou a nota soberana dos títulos de longo prazo em moeda estrangeira de "BB+" para "BBB-" e, em moeda local, de "BBB" para "BBB+". Também melhorou o rating de curto prazo em moeda estrangeira de "B" para "A-3" e o de moeda local de "A-3" para "A-2".

A perspectiva para as notas, que representam a concessão de investment grade para o Brasil, é estável. Segundo a agência, essa perspectiva reflete a existência de um elevado endividamento público, mas também a expectativa de crescimento econômico e uma menor dívida externa.

De acordo com a analista Lisa Schineller, a política econômica pragmática adotada pelo Brasil sustenta um crescimento do PIB de 4% a 4,5% ao ano. Outros fatores citados pela S & P para justificar a melhora na nota de crédito são o amplo mercado consumidor, o crescimento do mercado de capitais e boas perspectivas de investimento. A agência lembra que, apesar das condições mais apertadas de crédito global, o Brasil continua a atrair investimentos diretos diversificados. A S & P estima que o fluxo desses investimentos seja suficiente para compensar o déficit nas transações correntes, estimado em US$ 20 bilhões neste ano. Já a dívida externa líquida do Brasil, diz a S & P, caiu "dramaticamente" e pode ter um aumento apenas "modesto" com a piora dos resultados nas contas externas. O governo promoveu uma recompra de títulos da dívida e um alongamento de prazos que permitiu essa redução no endividamento.

A analista comenta que a inflação subiu no país, para uma taxa anualizada de 4,7% em março, em decorrência de pressões de custos de alimentos e petróleo, mas também por causa da demanda aquecida. "O banco central do Brasil iniciou um ciclo prospectivo de aperto monetário em abril, para assegurar que os benefícios duramente conseguidos associados com a inflação baixa sejam mantidos", acrescentou.

O panorama fiscal é a principal fraqueza no perfil de crédito do Brasil na análise da agência. No fim de 2007, a dívida líquida do setor público somou 47% do PIB (incluindo 7% do PIB de operações compromissadas do Banco Central), taxa maior do que a média de 20% dos demais países classificados com a nota BBB. Ainda assim, a S & P diz que o governo está preparado para absorver a perda da CPMF e atingir a meta de superávit primário de 3,8% do PIB neste ano. "A dívida líquida permanece maior do que em muitos BBB, mas os registros corretamente previsíveis das políticas fiscal e de administração da dívida diminuem esses riscos", afirma Lisa Schineller em nota.

"Ações para reduzir o nível e a rigidez dos gastos públicos fortaleceriam a posição fiscal do Brasil e facilitariam o declínio nas taxas de juros reais, com implicações positivas para o investimento e o crescimento e um declínio mais rápido da dívida pública", resumiu Lisa. Ela também notou que a aprovação de reformas tributária e previdenciária ("o que a S & P não espera dentro do horizonte do rating") seria positivo para a análise de crédito. "Se o compromisso deste ou de um futuro governo com o pragmatismo da política fiscal e monetária enfraquecer, se as políticas criarem empecilhos para o clima de investimento, ou se o governo falhar em responder adequadamente a choques imprevistos, a nota de crédito pode ficar sob pressão de queda", concluiu a analista.

(Valor Online)

Para economistas, lado fiscal e independência do BC foram fundamentais para o grau de investimento

Valor Online
30/04/2008 20:32


SÃO PAULO - O grau de investimento atribuído ao Brasil hoje pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s surpreendeu os analistas brasileiros. Boa parte deles esperava essa classificação para o próximo trimestre ou mesmo para o começo do ano que vem.

A avaliação de muitos deles agora, depois da decisão, é que a independência demonstrada pelo Banco Central na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando elevou a Selic em 0,50 ponto percentual, e o resultado do superávit fiscal divulgado hoje foram determinantes para a conquista da avaliação.

Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset, projetava o grau do investimento para o Brasil na segunda metade do ano, mas acredita que já havia razões suficientes para elevar a nota do país. "Do ponto de vista de solvência o Brasil já é um país bastante confiável e solvência é um item essencial para obter essa classificação", diz.

O aumento das reservas internacionais e o conservadorismo do Banco Central em relação à política monetária também foram elementos determinantes para a notícia de hoje. "Embora o BC não tenha independência de direito, tem de fato", lembrou, acrescentando que o superávit fiscal e a redução da relação entre dívida pública e PIB foram importantes também para obter o grau de investimento.

Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, concorda com a avaliação e acredita que a decisão da S & P veio em boa hora. A crise americana havia instaurado a idéia entre os agentes de que o grau de investimento seria postergado em função da instabilidade global.

"Mas os últimos números de superávit nominal e da relação dívida/PIB foram muito expressivos", diz. As contas públicas consolidadas apresentaram superávit nominal (contando juros) de R$ 3,99 bilhões em março, como resultado de superávit primário (receitas menos despesas) de R$ 15,403 bilhões. A dívida líquida total do setor público recuou para R$ 1,141 trilhão no final de março, correspondente a 41,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Gradual Corretora, a elevação da nota brasileira se deve principalmente ao comportamento do Banco Central. Silveira esperava que a decisão viesse apenas no primeiro trimestre de 2009. "Ficou clara (na última reunião) a independência e a visão de que as instituições brasileiras estão consolidadas."

(Bianca Ribeiro Valor Online)