Traduzido por Carlos Cinelli, da revista "The Economist".
Acomode-se em um dos “sushi bars” de São Paulo e logo você escutará conversas sobre negócios recém começados ou alguma outra idéia brilhante para os crescentes membros da classe média brasileira aplicarem sua renda extra.
Um simples “estudo de campo” desse tipo deixa bastante claro o seguinte: não faltam empreendedores no Brasil.
Contudo, segundo uma pesquisa mais abrangente feita pela International Finance Corporation (IFC), uma organização “irmã” do banco mundial, empreendedores brasileiros são de uma raça bem diferente da de seus colegas da Rússia e China.
No geral, 82% dos empreendedores, nos três países, vieram de famílias com pelo menos outro empreendedor. Nos três países, eles também eram mais altos do que a média da população. Mas, as similitudes acabam aqui. Em particular, os empreendedores brasileiros demonstraram ter uma aversão ao risco muito maior do que os demais.
Os pesquisadores mediram isso oferecendo aos entrevistados apostas hipotéticas variando retorno e risco e oferecendo uma escolha entre dinheiro agora ou mais dinheiro depois. Os empreendedores brasileiros da amostra tiveram uma aversão ao risco igual aos dos brasileiros comuns e, também, tendiam mais para a aposentadoria, quando tivessem bastante dinheiro, do que seus colegas empreendedores de outros países.
Talvez, essa falta de vontade de acumulação, na aposentadoria, seja porque há tantas coisas mais interessantes para se fazer no Brasil do que trabalhar. Mas, e quanto à aversão ao risco? Por que os brasileiros têm tanto medo do risco? Simeon Djankov, um dos autores do estudo, conjectura que, na vida real, os empreendedores brasileiros enfrentam muito mais riscos do que os de qualquer outro lugar. Iniciar um negócio demora 152 dias e requer 18 procedimentos diferentes. São necessárias cerca de 2.600 horas de trabalho para que, um negócio de tamanho médio, no Brasil, mantenha-se em dia com seus impostos. O mesmo negócio pagaria 69% do lucro do seu segundo ano de funcionamento em impostos.
Empreendedores brasileiros mostram uma não surpreendente vontade de burlar a lei. “Essencialmente, o que determina um bom empreendedorismo no Brasil é a habilidade de navegar em torno da burocracia”, afirma Djankov. Eduardo Giannetti, um economista, concorda: “Se Bill Gates tivesse iniciado a Microsoft numa garagem no Brasil, ela ainda estaria na garagem”. Logo, o mais difícil de explicar não é por que os empreendedores brasileiros são como são, mas sim como eles ainda existem.